Sim, previsão de dengue com modelos estatísticos e aprendizado de máquina já funciona no Brasil como apoio ao planejamento da vigilância, não como bola de cristal. O que há de mais consolidado é o InfoDengue, que publica alertas semanais por município, e o desafio InfoDengue-Mosqlimate, que combina vários modelos numa previsão por estado. A temporada 2025-2026 mostra tanto o valor quanto o limite: o número previsto e o observado até agora parecem bem distantes, e entender por quê faz parte da história.

O que existe hoje

InfoDengue. É uma plataforma da FGV EMAp com a Fiocruz que integra dados epidemiológicos e climáticos. Segundo a própria página, traz atualização semanal com incidência estimada e nível de atenção dos municípios, além de relatórios municipais e estaduais e uma API aberta para pesquisadores.

Desafio InfoDengue-Mosqlimate (IMDC). Desde 2024, o consórcio promove uma competição anual: equipes de pesquisa recebem séries históricas de casos prováveis (organizadas a partir do Sinan e do IBGE) e dados de clima, e enviam previsões por estado. Os modelos vão de estatística clássica a aprendizado de máquina. As melhores previsões são combinadas num ensemble, que é um "comitê de modelos": em vez de apostar num único método, combinam-se as previsões dos modelos que melhor se saíram em testes com dados passados. Segundo o relatório de 2025, o ensemble da temporada 2025-2026 combinou os cinco melhores modelos.

Uso real. O artigo do PNAS sobre a primeira edição relata que os modelos de conjunto foram adotados por autoridades de saúde brasileiras para planejar a resposta à epidemia prevista de 2025. Por isso classificamos o estágio como uso: há operação regular, ainda que como ferramenta de apoio. Não encontramos, nas fontes lidas, estudo que meça se o uso dessas previsões reduziu casos ou mortes.

O que a evidência mostra

  • Nenhum modelo vence sempre. O PNAS conclui que o desempenho variou entre anos e locais e que nenhum modelo se destacou de forma consistente, principalmente na temporada de 2024, que teve um número de casos sem precedente.
  • Clima ajuda. No estudo do Rio de Janeiro, a inclusão de temperatura e umidade melhorou a precisão do modelo estatístico SARIMAX, e a combinação de modelos (LSTM com ARIMA) trouxe ganhos adicionais.
  • Horizonte curto é mais fácil. Uma revisão de 2026 na Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical aponta que Random Forest e LSTM tiveram melhor desempenho em previsões de curto prazo, de até uma semana. Sistemas de alerta mais complexos chegaram a antecipar com até 13 semanas.
  • O comitê acertou razoavelmente em 2024-2025. O relatório do consórcio apresentou dois cenários (moderado e alto). Na maioria dos estados, a incidência observada ficou dentro da faixa do cenário moderado, embora o modelo tenha superestimado a região Sul.

A temporada 2025-2026: previsão e realidade

O relatório divulgado em novembro de 2025 estimou 1,8 milhão de casos de dengue na temporada, definida da semana epidemiológica 41 de 2025 à 40 de 2026. Pela previsão, 54% ficariam em São Paulo e 10% em Minas Gerais. A conclusão do documento foi de "ano com características epidêmicas, mas sem sinais de alcançar os extremos" de 2024, quando o país teve cerca de 6,5 milhões de casos prováveis.

Os números oficiais reportados depois foram bem mais baixos. Segundo a Agência Brasil, de 1º de janeiro a 11 de abril de 2026 foram 227,5 mil casos prováveis, contra 916,4 mil no mesmo período de 2025 (queda de 75%). Segundo o Brasil 61, até 26 de setembro de 2026 eram 470,5 mil, contra 1,5 milhão em 2025 (queda de cerca de 70%). O Ministério da Saúde atribuiu a queda a ações coordenadas com estados e municípios, como a ampliação de armadilhas para o mosquito, insetos estéreis e a expansão do método Wolbachia.

Atenção para a comparação. Ela não é exata: 2026 é ano-calendário e a previsão cobre as semanas 41 a 52 de 2025 mais 2026. Mesmo assim, o contraste sugere que a previsão ficou bem acima do que se observou. Isso não prova que o modelo "falhou": o relatório já registrava grande variabilidade entre os modelos. Mas é um lembrete honesto de que previsão de epidemia é cenário com incerteza, e que ações de controle também mudam o resultado.

Limites que importam

  • Qualidade da notificação. Os modelos aprendem com casos notificados, não com casos reais. O relatório destaca que o Espírito Santo teve a inclusão de treino e previsão dispensada no desafio por problemas de notificação, e lista como fatores de risco a chikungunya diagnosticada errado como dengue e o Oropouche notificado como dengue.
  • Clima e eventos novos. Anos atípicos, como 2024, desafiam qualquer modelo treinado no passado. A expansão do sorotipo DENV-3 é citada pelo relatório como fator que pode agravar a situação.
  • Previsão por estado, decisão por município. O ensemble é estadual. A gestão local precisa de dados municipais e de ação em campo.

O que isso muda para você

A previsão ajuda gestores a preparar leitos, insumos e campanhas. Para o cidadão, o mais útil é consultar fontes oficiais: o InfoDengue (nível de atenção do seu município), o Painel de Monitoramento das Arboviroses do Ministério da Saúde e o boletim da secretaria de saúde do seu estado ou cidade. Em caso de febre ou sintomas, a orientação oficial é procurar uma unidade de saúde; esta matéria não substitui avaliação profissional. Para entender como outras tecnologias entram no cuidado, veja o guia de perguntas para levar ao médico e a matéria sobre IA que detecta doenças antes dos sintomas.

Perguntas frequentes

A IA consegue prever a dengue com exatidão?

Não. Os estudos lidos mostram que o desempenho varia entre anos e estados e que nenhum modelo se destacou sempre. Por isso se usa um comitê de modelos e se trabalha com faixas de incerteza, não com um número único.

Quem faz as previsões de dengue no Brasil?

O InfoDengue (FGV EMAp e Fiocruz) publica alertas semanais por município, e o consórcio InfoDengue-Mosqlimate organiza o desafio anual de previsão com equipes de várias instituições. Segundo o PNAS, autoridades brasileiras adotaram o ensemble para planejar a resposta de 2025.

A previsão de 1,8 milhão de casos se confirmou?

Pelos dados oficiais reportados (470,5 mil casos prováveis até 26/09/2026), os casos ficaram bem abaixo do previsto, mas a comparação não é direta, pois a temporada vai da semana 41 de 2025 à 40 de 2026. Conferimos só reportagens, não o painel oficial.

Onde vejo a situação da dengue na minha cidade?

No InfoDengue, no Painel de Monitoramento das Arboviroses do Ministério da Saúde e nos boletins da secretaria estadual ou municipal. Sempre confira o ano e a semana epidemiológica dos dados.

A IA entra na decisão de tratamento da dengue?

As fontes desta matéria tratam de vigilância, ou seja, de previsão para a população. Elas não tratam de diagnóstico ou tratamento individual, que cabem a profissionais de saúde.

Por que a notificação de casos atrapalha os modelos?

Porque os modelos aprendem com o que foi notificado. Se há subnotificação, atraso ou confusão com outras doenças, como chikungunya e Oropouche, a previsão herda esse erro.

Fontes