Escribas de IA, ou "ambient scribes", escutam a conversa entre médico e paciente e geram um rascunho da anotação da consulta. Os estudos publicados até agora mostram ganhos reais, mas pequenos e desiguais: um pouco menos de tempo de documentação para alguns médicos, alívio no cansaço e na carga mental, e também notas com omissões e informações inventadas, o que obriga o médico a revisar cada uma. Não se trata de um robô que decide nada: é um redator de rascunho.
Como funciona
O aparelho ou aplicativo capta o áudio da consulta, transcreve e usa um modelo de linguagem para resumir em formato de prontuário: queixa, exame, conduta. O médico lê, edita e assina. Quem responde pela nota é ele.
O que mostram os estudos
Ensaio randomizado na UCLA (NEJM AI, novembro de 2025). Foram 238 médicos ambulatoriais de 14 especialidades, sorteados para usar uma de duas ferramentas (DAX Copilot, Nabla) ou seguir como de costume, em um único hospital universitário, de 4 de novembro de 2024 a 3 de janeiro de 2025. O tempo gasto dentro da nota caiu 9,5% com uma das ferramentas, com intervalo de confiança de 1,8% a 17,2%. Com a outra, a queda de 1,7% não foi estatisticamente distinta de zero. O uso real foi parcial: o escriba foi acionado em cerca de 30% a 34% das consultas e cerca de 15% dos médicos designados nunca o usaram. Medidas de carga de trabalho e de exaustão melhoraram, mas os autores as tratam como exploratórias. Os próprios autores lembram que o tempo de edição do rascunho não entra na métrica, o que pode superestimar a economia.
Estudo de qualidade em seis sistemas de saúde (JAMA Network Open, outubro de 2025). Com 263 médicos e outros profissionais por 30 dias, a proporção com burnout autorrelatado caiu de 51,9% para 38,8%, e o autorrelato de tempo gasto documentando fora do expediente também melhorou. Mas é um estudo antes e depois, sem grupo de comparação, com participação voluntária e 60,3% de resposta. Mostra associação, não prova causa.
Outro estudo, resultado diferente. Em um grupo médico no Havaí (JMIR Medical Informatics, 2026), os usuários mais frequentes tiveram queda de 21% no tempo diário de notas (13,6 minutos) e de 13% no tempo fora do expediente, mas os autores concluíram que não houve diferença significativa nos sintomas de burnout. Resultados variam por serviço e por quanto o médico usa a ferramenta.
Erros e "alucinações" nas notas
Um piloto de 2026 (JMIR Medical Informatics) pediu a 31 médicos que avaliassem 356 notas escritas por escriba de IA. Houve omissões em 18% das notas, informações inventadas (alucinações) em 11,5% e inclusões acidentais em 9,3%. A maioria dos erros foi avaliada como leve ou moderada, e 5,3% das notas continham erros avaliados como de risco sério ou iminente se não fossem corrigidos. Segundo o mesmo estudo, 94,7% estavam livres de erros significativos, e 14,9% das notas (143 de 960 com dado de edição) foram assinadas sem nenhuma edição, o que reforça a necessidade de revisão. No ensaio da UCLA, os médicos relataram que imprecisões clinicamente relevantes ocorriam "ocasionalmente", entre os tipos de erro descritos, as omissões foram as mais citadas, e um evento adverso leve foi registrado: a nota não incluía um aconselhamento extenso feito na consulta.
Um comentário publicado no JMIR em 2026 aponta ainda um problema que os estudos mal medem: depois de assinada, a nota é copiada, resumida e codificada em outros sistemas, e um erro pequeno pode se propagar pelo prontuário. A segurança, argumentam os autores, deveria ser medida também depois da assinatura.
O que o paciente pode esperar no Brasil
Não encontramos estudo brasileiro sobre escribas de IA. O que há é a norma do Conselho Federal de Medicina. A Resolução CFM nº 2.454/2026, publicada no Diário Oficial em 27 de fevereiro de 2026, entrou em vigor 180 dias depois. O texto não fala de escribas, mas as regras gerais valem para qualquer IA usada no cuidado, e a aplicação a escribas é leitura da Redação:
- Informar o paciente: o art. 5º, § 1º, diz que o paciente tem direito de ser informado, de forma clara e acessível, quando IA for usada como apoio relevante em seu cuidado, diagnóstico ou tratamento. Se um escriba gravar e resumir a consulta, é razoável entender que isso deve ser dito.
- Recusar: o § 3º manda respeitar a autonomia do paciente, inclusive a recusa informada do uso de IA.
- Registrar no prontuário: o art. 4º, V, exige registrar o uso de IA como apoio à decisão médica.
- Responsabilidade: o médico é o responsável final (art. 4º, I, e art. 7º).
- Dados: o art. 6º exige zelo com a confidencialidade e que o compartilhamento de dados sensíveis com sistemas de IA ocorra de acordo com as finalidades informadas e só quando estritamente necessário.
Dados de saúde são dados pessoais sensíveis pela LGPD. Para entender seus direitos, veja a matéria sobre quem é dono dos seus dados de saúde.
Perguntas úteis para levar à consulta
Esta lista é geral, não é conselho médico: o áudio é gravado e onde fica guardado? Quem tem acesso e por quanto tempo? Posso pedir que a gravação não seja feita? O médico revisa a nota antes de assinar? Como peço correção se a anotação estiver errada? Há mais sugestões no guia de perguntas para levar ao médico sobre novas tecnologias de saúde.
Perguntas frequentes
O escriba de IA substitui o médico ou o prontuário?
Não. Ele gera um rascunho que o médico lê, corrige e assina. A Resolução CFM 2.454/2026 diz que a IA deve ser ferramenta de apoio e que o médico é o responsável final pelas decisões.
Os escribas reduzem mesmo o tempo e o burnout?
Os estudos mostram ganhos, mas modestos e variáveis. No ensaio randomizado da UCLA, a economia de tempo foi pequena e só significativa com uma das duas ferramentas. Um estudo antes e depois mostrou queda no burnout autorrelatado, sem grupo de comparação.
As notas de IA têm erros?
Sim. Um piloto com 356 notas avaliadas encontrou omissões em 18% e alucinações em 11,5%, a maioria leve ou moderada, e 5,3% com erros de risco sério se não fossem corrigidos. Por isso a revisão do médico é essencial.
O médico precisa me avisar que usa IA na consulta?
A Resolução CFM 2.454/2026 (art. 5º, § 1º) garante ao paciente o direito de ser informado quando a IA for apoio relevante em seu cuidado. A norma não cita escribas; entender que o aviso vale para eles é leitura nossa.
Posso recusar a gravação da consulta por IA?
O art. 5º, § 3º, manda respeitar a recusa informada do uso de IA. Se tiver dúvida sobre como sua recusa será tratada naquele serviço, pergunte ao médico ou ao estabelecimento.
Meus dados da consulta ficam protegidos?
A resolução exige confidencialidade e segurança dos dados de saúde usados por IA, e a LGPD trata esses dados como sensíveis. Como cada serviço armazena as gravações varia, e as fontes lidas não detalham isso; pergunte.
Fontes
- Ambient AI Scribes in Clinical Practice: A Randomized Trial (Lukac et al.), NEJM AI, 2025;2(12) (texto lido no PubMed Central, PMC12768499) (2025-11-26)
- Use of Ambient AI Scribes to Reduce Administrative Burden and Professional Burnout (Olson et al.), JAMA Network Open (resumo lido via Europe PMC, PMID 41037268) (2025-10-01)
- Quality of Clinical Notes Created by Ambient Listening Generative AI: Pragmatic Prospective Pilot Study, JMIR Medical Informatics (resumo lido via Europe PMC, PMID 41996389) (2026-01-01)
- Ambient AI Scribe Implementation in an Ambulatory Setting in a Single Medical Group: Prospective Study, JMIR Medical Informatics (resumo lido via Europe PMC, PMID 42337645) (2026-01-01)
- AI Scribe Safety: Measuring What Happens After Signing (Coiera e Fraile-Navarro), JMIR (comentário; resumo lido via Europe PMC, PMID 42574720) (2026-01-01)
- Resolução CFM nº 2.454, de 11 de fevereiro de 2026: normatiza o uso da inteligência artificial na medicina, Diário Oficial da União, Seção 1, p. 158 (cópia em PDF lida) (2026-02-27)



