Um monitor contínuo de glicose (em inglês, CGM) é um sensor pequeno, colado na pele, que mede a glicose no líquido que fica entre as células e envia os valores para um aplicativo ou leitor. Para quem tem diabetes tipo 1, ou diabetes tipo 2 com uso de insulina, há ensaios clínicos mostrando melhora do controle glicêmico. Para quem não tem diabetes, não há evidência de que o aparelho melhore a saúde ou previna doenças.
O que o sensor faz de verdade
O sensor tem um filamento fino que fica logo sob a pele. Ele mede a glicose no líquido intersticial, não no sangue, e o aplicativo mostra a curva do dia, setas de tendência e, em alguns modelos, alarmes. É diferente do glicosímetro tradicional, que usa uma gota de sangue do dedo e uma fita reagente. A Nota Técnica 12/2024 da Anvisa descreve essas duas famílias como medições diretas feitas pelo próprio equipamento.
A diretriz 2026 da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) lembra que o CGM reduz as medições de ponta de dedo, mas não as elimina. A leitura pode piorar nos extremos de glicose e quando ela muda rápido. Alguns sistemas sofrem interferência de substâncias como paracetamol e vitamina C. E, se o sintoma não combina com o número do sensor, a recomendação é confirmar com a glicemia capilar.
Para quem há benefício comprovado
A SBD classifica as indicações por tipo de diabetes. Na diretriz 2026:
- Diabetes tipo 1: CGM recomendado para toda pessoa com a doença (recomendação R4, classe I, nível A de evidência).
- Diabetes tipo 2 com insulina: CGM como forma preferencial de monitorização (R11, classe I, nível A).
- Diabetes tipo 2 sem insulina: o CGM "pode ser considerado" para melhorar o controle (R12, classe IIb, nível A). Não é indicação automática.
Há ensaios clínicos que sustentam isso. No ensaio DIAMOND (JAMA, 2017), 158 adultos com diabetes tipo 1 que usavam injeções de insulina foram sorteados para CGM ou cuidado habitual. Depois de 24 semanas, a hemoglobina glicada (HbA1c) ficou 0,6 ponto percentual menor com CGM, e o tempo diário abaixo de 70 mg/dL caiu de 80 para 43 minutos (medianas). O estudo teve apoio da Dexcom, fabricante de CGM.
Em diabetes tipo 2 com insulina basal, o editorial da JAMA de 2021 descreve o ensaio de Martens e colegas, com 175 pessoas: diferença ajustada de HbA1c de menos 0,4 ponto percentual (intervalo de confiança de 95%: menos 0,8 a menos 0,1) após 8 meses. O editorial observa que o grupo de comparação recebeu orientação para ajustar a insulina com o glicosímetro, não um cuidado "comum".
Estes são resultados médios de grupos. Eles não dizem o que vai acontecer com uma pessoa específica. Se o CGM faz sentido no seu caso é decisão para o seu médico, que conhece o seu tratamento.
Os CGMs de venda livre nos Estados Unidos
Nos EUA, a FDA autorizou em 5 de março de 2024 o Dexcom Stelo, descrito pela agência como o primeiro CGM vendido sem receita. A indicação é para adultos a partir de 18 anos que não usam insulina, incluindo pessoas com diabetes tratadas com comprimidos e pessoas sem diabetes que querem ver como alimentação e exercício afetam a glicose. A FDA diz que o aparelho não é para quem tem hipoglicemia problemática, porque não foi feito para alertar sobre ela, e que ninguém deve tomar decisões médicas só com as leituras, sem falar com um profissional. Cada sensor dura até 15 dias.
Em junho de 2024, segundo a Abbott, a FDA liberou outros dois produtos de venda livre: o Libre Rio, para adultos com diabetes tipo 2 que não usam insulina, e o Lingo, voltado a consumidores adultos que querem melhorar o bem-estar. O rótulo do Lingo diz que ele não é destinado a diagnosticar doenças, incluindo diabetes. Essas informações vêm da empresa; não lemos o ato da FDA para esses dois.
E em quem não tem diabetes?
É aqui que o marketing corre mais do que a ciência. Uma revisão pedida pela JAMA Internal Medicine, "Continuous Glucose Monitoring in Type 2 Diabetes and Beyond", foi resumida pela Universidade de Gotemburgo em 4 de agosto de 2026. Segundo a universidade, os autores não encontraram evidência científica de que o CGM melhore a saúde ou previna doenças em pessoas sem diabetes. Eles alertam que oscilações normais da glicose podem ser superinterpretadas, levando a restrições alimentares desnecessárias ou a ansiedade. Não lemos o artigo completo.
Isso não significa que ver a própria curva seja perigoso para todos, nem que a curiosidade seja proibida. Significa que um pico depois de uma refeição, por si só, não é diagnóstico nem prova de que um alimento "faz mal". Quem tem histórico de transtorno alimentar deve conversar com um profissional antes: o próprio rótulo do Lingo pede isso.
O que muda para o Brasil
- Registro: a Abbott lista na sua página brasileira registros na Anvisa para o sensor FreeStyle Libre (80146502021) e para o FreeStyle Libre 2 Plus (80146502386). Não encontramos confirmação de registro de Stelo, Lingo ou Libre Rio no país, nem dos sensores da Dexcom; se for comprar, consulte o número de registro na embalagem e no portal de consultas da Anvisa.
- Acesso: a diretriz da SBD aponta que o acesso ao CGM é limitado no Brasil por falta de programas que garantam a oferta pelo SUS.
- Relógios que "medem glicose": a Anvisa afirma, na Nota Técnica 12/2024 e em nota de 27 de agosto de 2026, que não existe smartwatch nem anel autorizado no Brasil para medir glicose de forma não invasiva. A FDA emitiu alerta equivalente em 21 de fevereiro de 2024 e diz que não autorizou nenhum relógio ou anel com essa função. O risco apontado pelas duas agências é prático: uma leitura errada pode levar a dose inadequada de insulina.
Um relógio que apenas exibe dados de um CGM autorizado, como o que aparece no aplicativo do sensor, não entra nesse alerta. O que está no alerta são relógios que dizem medir glicose sem furar a pele.
Como usar essa informação
Se você tem diabetes, pergunte ao seu médico ou à sua equipe se o CGM combina com o seu tratamento, e como agir em caso de alarme ou de leitura que não bate com os sintomas. Se não tem diabetes e está curioso, trate o sensor como curiosidade e não como exame. Em qualquer caso, não mude medicação, dieta ou rotina de exercícios apenas por causa de uma curva no aplicativo. Para levar dúvidas à consulta, veja o guia de perguntas sobre novas tecnologias de saúde. Sobre o que dá para esperar de outros sensores de pulso, leia o que o smartwatch mede e o que não mede e como o celular pode virar laboratório de saúde. Dados de glicose são dados de saúde: revise as permissões dos apps que recebem essas informações.
Perguntas frequentes
O monitor contínuo de glicose substitui o exame de sangue?
Não. Ele mede a glicose no líquido intersticial e não serve para diagnosticar diabetes. A SBD recomenda manter a glicemia capilar para confirmar hipoglicemia e quando os sintomas não combinam com o sensor.
Quem tem diabetes tipo 2 deve usar CGM?
Depende do tratamento. Pela diretriz da SBD, em quem usa insulina o CGM é a forma preferencial de monitorização; em quem não usa, ele pode ser considerado. A decisão é do médico que acompanha o caso.
Os CGMs de venda livre dos EUA são vendidos no Brasil?
Não encontramos confirmação de registro de Stelo, Lingo ou Libre Rio na Anvisa. A Abbott informa registros para o FreeStyle Libre. Confira sempre o número de registro do produto.
Pessoas sem diabetes ganham algo com CGM?
Segundo a nota sobre a revisão da JAMA Internal Medicine, não há evidência de que melhore a saúde ou previna doenças nesse grupo, e as oscilações normais podem gerar preocupação desnecessária.
Smartwatch mede glicose sem furar a pele?
Não existe aparelho desse tipo autorizado pela FDA nem pela Anvisa. As duas agências alertam que leituras erradas podem levar a decisões perigosas.
Fontes
- FDA clears first over-the-counter continuous glucose monitor (Dexcom Stelo), FDA (EUA) (2024-03-05)
- Abbott Enters U.S. Consumer Biowearables Market With Lingo and Libre Rio, Abbott (documento do fabricante) (2024-06-25)
- Do Not Use Smartwatches or Smart Rings to Measure Blood Glucose Levels: FDA Safety Communication, FDA (EUA) (2024-02-21)
- Nota Técnica nº 12/2024: posicionamento técnico da Anvisa acerca do uso de SmartWatch para medição de glicemia, Anvisa (Brasil) (2024-02-23)
- Anéis inteligentes NÃO devem ser usados para diagnosticar doenças, Anvisa (Brasil) (2026-08-27)
- Aviso legal e referências (números de registro na Anvisa dos produtos FreeStyle Libre), Abbott Brasil (documento do fabricante) (2026-10-26)
- Diretriz da SBD: monitorização da glicemia capilar, da glicose intersticial (CGM) e cetonemia capilar em pessoas com diabetes mellitus (edição 2026), Sociedade Brasileira de Diabetes (2026-01-01)
- Effect of Continuous Glucose Monitoring on Glycemic Control in Adults With Type 1 Diabetes Using Insulin Injections: the DIAMOND randomized clinical trial (registro do artigo), JAMA, via Europe PMC (2017-01-24)
- Broadening Access to Continuous Glucose Monitoring for Patients With Type 2 Diabetes (editorial que descreve o ensaio de Martens et al.), JAMA, via PubMed Central (2021-06-08)
- No evidence that continuous glucose monitors improve health in people without diabetes (nota sobre revisão na JAMA Internal Medicine), Universidade de Gotemburgo (2026-08-04)



