Pode ajudar a perceber sinais, mas não a diagnosticar. Alguns smartwatches têm recursos autorizados pela FDA, o regulador de dispositivos médicos dos Estados Unidos, para avisar sobre uma possível fibrilação atrial (um tipo de arritmia) ou sobre padrões sugestivos de hipertensão. Um aviso do relógio é um motivo para conversar com um médico. Um relógio sem aviso não prova que o coração está bem.
O que um smartwatch consegue medir
Os relógios usam, em geral, dois tipos de sensor:
- Sensor óptico (fotopletismografia): luzes verdes no verso do relógio medem variações do fluxo de sangue no pulso. É o que permite estimar a frequência cardíaca e identificar pulsos irregulares.
- Eletrodos de ECG (em alguns modelos): ao tocar a coroa do relógio com o dedo, forma-se um circuito e o aparelho registra uma derivação de eletrocardiograma, que é um registro simplificado e não substitui o eletrocardiograma feito em consultório.
Nenhum deles mede pressão arterial diretamente nem detecta infarto. A própria Apple escreve em sua página de suporte: "Apple Watch cannot detect heart attacks", ou seja, o relógio não detecta infartos.
O que é fibrilação atrial
A fibrilação atrial (FA) é um ritmo cardíaco irregular, às vezes sem sintomas. Pode aumentar o risco de formação de coágulos e de acidente vascular cerebral (AVC), segundo a página de suporte da Apple. Por isso há interesse em achar casos silenciosos. Quem diagnostica e trata, porém, é o médico, com ECG e outros exames.
O que a FDA autorizou, com datas
- ECG e notificação de ritmo irregular (Apple Watch), 2018: a FDA concedeu autorizações pelo caminho De Novo, para novos tipos de dispositivo de risco baixo a moderado, ambas em 11 de setembro de 2018. O banco da FDA lista o "ECG App" (DEN180044) como software de eletrocardiógrafo para uso sem prescrição.
- Notificação de ritmo irregular, versão atual: nova autorização em 21 de julho de 2023 (K231173), pelo caminho 510(k), que compara o produto a um já autorizado.
- Notificação de hipertensão (Apple Watch), 2025: autorizada em 11 de setembro de 2025 (K250507), por 510(k). A informação de que o recurso foi autorizado em setembro de 2025, presente no brief, foi confirmada na base da FDA. "Autorizado" aqui é a palavra correta; não é o mesmo que "aprovado" no caminho mais rigoroso (PMA).
- Outras marcas: a consulta ao banco da FDA mostra também uma autorização para o "Fitbit Irregular Rhythm Notifications" em abril de 2022.
Cada autorização vale para um uso específico, descrito na bula. A FDA autorizar um recurso não significa que o relógio sirva para qualquer problema do coração.
O que os estudos mostram
Ritmo irregular. No Apple Heart Study (New England Journal of Medicine, 2019), 419.297 pessoas usaram o relógio; 2.161 (0,52%) receberam aviso de pulso irregular. Das que devolveram o adesivo de ECG analisável (450), 34% tinham fibrilação atrial confirmada. O estudo foi financiado pela Apple. Segundo as instruções de uso da própria Apple, em estudo com 573 pessoas a notificação teve sensibilidade de 88,6% e especificidade de 99,3% em relação a um adesivo de ECG, mas o recurso só colhe dados com o usuário parado e "não pretende notificar todo episódio".
Hipertensão. O resumo da FDA para o recurso de hipertensão descreve um estudo com 2.229 pessoas sem diagnóstico prévio, das quais 1.863 tinham dados utilizáveis. A sensibilidade foi de 41,2% e a especificidade de 92,3%. Em linguagem simples: o recurso deixa passar a maioria das pessoas com hipertensão (quase 6 em cada 10 não recebem aviso) e, entre quem não tem, uma minoria recebe alerta. A FDA registra que a ausência de notificação não indica ausência de hipertensão, e que o recurso não substitui a medição de pressão, não serve para monitorar tratamento e não é indicado na gravidez nem para menores de 22 anos.
Limites e falsos alarmes
- Falso negativo: o relógio pode não avisar quando há problema. A Apple diz que quem tem fibrilação atrial pode não receber notificação.
- Falso positivo: o aviso pode ser de outro tipo de arritmia, e há ocasiões em que não há doença. No Apple Heart Study, só uma parte dos avisos foi confirmada em ECG.
- Condições de uso: segundo a Apple, o recurso de ritmo irregular só colhe dados com o usuário parado, não foi testado em menores de 22 anos e não é destinado a quem já tem diagnóstico de fibrilação atrial. Sem dados suficientes, nenhuma notificação aparece.
- Disponibilidade: os recursos dependem do modelo, da versão do software e do país.
O que fazer ao receber um alerta
- Não se desespere nem se automedique. Um alerta é um sinal, não um diagnóstico. Não mude remédios por conta própria.
- Se há sintomas graves, procure emergência: dor ou pressão no peito, falta de ar intensa, desmaio ou sinais de AVC. Nesse caso, ligue para o SAMU (192) ou vá a um pronto-socorro.
- Sem sintomas graves, marque uma consulta. A Apple orienta quem não tem diagnóstico a conversar com o médico sobre a notificação. Leve o registro do relógio.
- Para hipertensão, meça a pressão com aparelho de braço validado e converse com o médico antes de tirar conclusões.
- Se ficou sem alerta mas se sente mal, procure atendimento mesmo assim.
Privacidade: seus dados cardíacos valem ouro
Dados de saúde são considerados dados pessoais sensíveis pela Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD, Lei 13.709/2018, art. 5º, II). O tratamento deles só pode ocorrer em hipóteses específicas, como o consentimento "específico e destacado" do titular para finalidades determinadas (art. 11). Na prática: leia o que o aplicativo faz com os dados, desative compartilhamentos que você não quer, e desconfie de apps que pedem acesso ao histórico de saúde sem explicar o motivo. Para uma visão geral de segurança digital, veja nossa cobertura de golpes.
O que isso significa para o Brasil
Segundo reportagem do Canaltech de maio de 2020 (que cita o MacMagazine), a Anvisa aprovou o recurso de ECG do Apple Watch no país. Não lemos o ato oficial nem confirmamos a classe de risco, e não confirmamos se a notificação de hipertensão já foi regularizada aqui. Antes de depender de um recurso, confira no site da Anvisa e nas configurações do seu relógio se ele está disponível e regularizado no Brasil.
Veja mais na seção Tech Health e, sobre IA em exames, a matéria IA pode detectar doenças antes dos sintomas?.
Perguntas frequentes
Um smartwatch pode diagnosticar fibrilação atrial?
Não. Ele pode emitir um aviso de possível fibrilação atrial, e a confirmação depende de ECG e avaliação médica.
O relógio mede a pressão arterial?
Os recursos autorizados de hipertensão não medem a pressão: identificam padrões sugestivos e avisam. Segundo o resumo da FDA, o recurso deixa de avisar em boa parte dos casos (sensibilidade de 41,2%), e não substitui medir a pressão.
O relógio avisa de infarto?
Não. A Apple afirma que o relógio não detecta infartos. Em dor ou pressão no peito, ligue para a emergência.
O que significa "autorizado pela FDA"?
Significa que o regulador dos EUA autorizou o recurso para um uso específico, por caminhos como De Novo ou 510(k). Não significa aprovação para qualquer uso, nem registro no Brasil.
E se o relógio não der nenhum alerta?
Isso não garante saúde cardíaca. Siga seus exames de rotina e procure um médico se tiver sintomas.
Meus dados de saúde do relógio estão protegidos pela LGPD?
Dados de saúde são dados pessoais sensíveis pela LGPD, com regras mais rígidas de tratamento. Mesmo assim, leia as permissões dos aplicativos e desative o que não precisa compartilhar.
Fontes
- 510(k) K250507: Hypertension Notification Feature (HTNF), Apple Inc. (decisão de 11/09/2025) e resumo 510(k), FDA (EUA), openFDA e banco 510(k) (2025-09-11)
- De Novo DEN180044: ECG App, Apple Inc. (decisão de 11/09/2018), FDA (EUA), banco De Novo (2018-09-11)
- Irregular Rhythm Notification Feature: Instructions for Use, Apple (instruções de uso, documento do fabricante) (2026-10-25)
- Heart health notifications on your Apple Watch, Apple Support (documento do fabricante) (2026-10-25)
- Large-Scale Assessment of a Smartwatch to Identify Atrial Fibrillation (Apple Heart Study), New England Journal of Medicine (PubMed 31722151) (2019-11-14)
- Eletrocardiograma do Apple Watch é aprovado pela Anvisa, Canaltech (2020-05-25)
- Lei nº 13.709/2018 (Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais), arts. 5º e 11, Planalto (Presidência da República) (2018-08-14)
