Se um emprego pede que você pague para trabalhar, é golpe. Foi o que a Febraban resumiu ao alertar sobre o "golpe da tarefa", também chamado de golpe da renda extra: o diretor do comitê de prevenção a fraudes da entidade, Adriano Volpini, disse para "parar, pensar e sempre desconfiar de proposta de trabalho que você tenha que pagar antes de receber o dinheiro". Este texto detalha o golpe, que o nosso guia com 20 golpes no WhatsApp trata em um item.
Como o golpe funciona, passo a passo
O roteiro é descrito de forma parecida por Febraban, TechTudo, Hardware.com.br, Serasa e pela Polícia Civil do Ceará:
- A abordagem. Chega uma mensagem, em geral no WhatsApp (também por SMS, Telegram ou e-mail), de uma suposta empresa de marketing digital oferecendo renda extra por tarefas simples: curtir publicações, seguir perfis, avaliar produtos ou comentar. A promessa costuma ficar entre R$ 100 e R$ 1.500 por dia, segundo a Febraban.
- As primeiras tarefas pagam. Os golpistas depositam valores pequenos, de alguns reais. O TechTudo cita uma tarefa de curtir uma venda na Shopee com recompensa de R$ 8. Segundo a reportagem, esse pagamento "funciona como prova de legitimidade".
- O grupo. A pessoa entra em um grupo cheio de "participantes" que postam comprovantes de saques. Segundo o TechTudo e a Febraban, parte deles pode ser golpista fingindo ser cliente.
- A migração. A conversa vai para outro aplicativo, geralmente o Telegram, com "missões" que rendem mais.
- A tarefa "pré-paga". Para liberar o ganho maior, a vítima precisa depositar primeiro. O exemplo da Febraban: R$ 1.000 hoje, com devolução de R$ 1.500 no mesmo dia.
- O desaparecimento. Depois do Pix, a vítima é bloqueada. Em outras versões, surgem novas taxas ("liberação", "garantia", "ativação") antes de qualquer saque, e os valores sobem a cada etapa.
Segundo a Polícia Civil do Ceará, em reportagem do Diário do Nordeste de novembro de 2023, a maior parte do prejuízo ocorreu por Pix, e a delegada citou casos de R$ 4 mil, R$ 6 mil e R$ 60 mil.
Variações
A Serasa descreve versões em que o golpe ganha outras roupas, com nomes de marcas conhecidas: tarefas "da Amazon ou do Mercado Livre", aplicativos que prometem pagar por avaliar looks de uma marca de moda, avaliações pagas de marcas e aplicativos de renda que mostram saldos crescentes que nunca são liberados. Em todos o padrão é o mesmo: uma taxa para liberar o dinheiro. A Redação não testou nenhum desses aplicativos.
O tamanho do problema: o que se sabe e o que não
- A empresa de segurança Redbelt Security contou 73 grupos ativos no Brasil em setembro de 2024 e 128 em dezembro de 2025, um aumento de cerca de 75% em 15 meses, segundo o Hardware.com.br e o TechTudo. É dado de uma empresa privada, citado pela imprensa; a Redação não encontrou o relatório original e não sabe quantas pessoas caíram.
- Os números gerais de fraude que circulam junto (Pix, perda média por vítima, tentativas por hora) vêm de fontes diferentes (Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Silverguard, Datafolha), citadas pelas reportagens e não conferidas por nós. Não são números do golpe da renda extra e por isso não aparecem aqui como tais.
- A alegação do Hardware.com.br de que o golpe adapta um esquema chinês chamado "Sha Zhu Pan" é da reportagem, e a Redação não a verificou.
Sinais de alerta
- Pede dinheiro para começar, liberar tarefa, sacar ou "garantir a vaga". É o sinal mais forte.
- Contato que você não pediu, por mensagem, para um trabalho a que você não se candidatou.
- Ganho alto para tarefa simples. O Hardware.com.br e a Serasa tratam R$ 100 por dia ou mais por cliques como sinal de alerta.
- Empresa sem CNPJ, site ou contrato que você possa verificar.
- Pressão e escassez: "últimas vagas", "só hoje".
- Grupo com muitos comprovantes e entusiasmo. Comprovante de saque é print, e print se fabrica.
- Valores que sobem a cada nível, ou conversa que migra para o Telegram.
- Pedido de documentos, selfie com RG, chave Pix ou código por SMS para "cadastro".
O TechTudo e a Serasa apontam também que as primeiras tarefas serem pagas não prova nada: o pagamento pequeno é parte do golpe.
Como checar uma oferta de trabalho antes de responder
Passos da Redação, de bom senso e compatíveis com as orientações citadas:
- Procure o CNPJ da empresa e consulte na página pública de consulta da Receita Federal se existe, qual a atividade e a data de abertura. Empresa aberta há semanas que promete salários altos merece desconfiança.
- Procure a empresa em fontes independentes, como busca na internet pelo nome e a palavra "golpe", e Reclame Aqui. A ausência de reclamações não prova que a empresa é séria, já que golpes trocam de nome.
- Peça um contrato e leia o que ele diz sobre pagamento, jornada e quem é o contratante.
- Não entre em grupo cheio de gente que você não conhece para "validar" a oferta.
- Não passe documentos nem dados bancários antes de confirmar a empresa por um canal que você mesmo encontrou. Para vagas de tecnologia, veja também golpes de falsa vaga.
O que fazer se você já depositou
Orientações de Febraban, TechTudo, Serasa e Hardware.com.br, na ordem de urgência:
- Pare de pagar. Quem promete liberar o dinheiro "acumulado" mediante nova taxa está aplicando o mesmo golpe. O TechTudo diz que o saldo prometido nunca é pago.
- Avise o banco na hora, pelos canais oficiais. A Febraban diz que a rapidez melhora as chances de recuperar o dinheiro. Para Pix, peça a abertura do MED, o Mecanismo Especial de Devolução. Veja prazos e limites na nossa matéria sobre o Pix MED. A devolução não é garantida.
- Guarde as provas: prints das conversas e do grupo, números de telefone, perfil dos golpistas e comprovantes.
- Registre boletim de ocorrência, na delegacia ou na delegacia virtual do seu estado. O banco pode pedir o número.
- Saia dos grupos, bloqueie os contatos e denuncie a conversa ao WhatsApp ou ao Telegram.
- Troque senhas de banco, e-mail e redes se tiver passado dados. Fique atento a movimentações nos meses seguintes: o TechTudo lembra que vítimas podem ser abordadas de novo.
Quem foi enganado não é bobo. O golpe é desenhado para parecer funcionar no começo.
Perguntas frequentes
O que é o golpe da renda extra?
É uma oferta de dinheiro por tarefas simples, como curtir vídeos ou seguir perfis, em que as primeiras tarefas são pagas em valores pequenos e depois a vítima é levada a depositar dinheiro para liberar ganhos maiores, que nunca chegam.
Existe trabalho legítimo que pede depósito para começar?
A Febraban e outras fontes lidas afirmam que não: nenhuma plataforma legítima pede investimento próprio para tarefas pagas. A Redação recomenda tratar qualquer cobrança antecipada como sinal de golpe.
Se me pagaram as primeiras tarefas, então é de confiança?
Não. Segundo o TechTudo e a Serasa, o pagamento inicial é parte do golpe para criar confiança, e os comprovantes de outros participantes podem ser falsos.
Já fiz o Pix. Consigo o dinheiro de volta?
Não há garantia. Avise o banco imediatamente e peça o MED, registre boletim de ocorrência e guarde as provas. A chance depende de o dinheiro ainda estar nas contas dos golpistas e do prazo.
É crime?
Os fatos descritos, enganar alguém para obter dinheiro, são tratados pelas polícias como golpe, e a classificação jurídica exata depende do caso. Esta matéria não é aconselhamento jurídico.
Fontes
- Bancos alertam para 'golpe da tarefa'; saiba como funciona, Diário do Nordeste (alerta da Febraban) (2024-01-10)
- Golpe da renda extra: como funciona a promessa das 'tarefas remuneradas', TechTudo (2026-04-07)
- Grupos de golpes de 'renda extra' no WhatsApp crescem 75%; veja como identificar, Hardware.com.br (2026-04-07)
- Golpe da renda extra: como identificar e evitar fraudes online, Serasa (2026-03-12)
- Golpe da renda extra: vítimas relatam prejuízo de até R$ 60 mil e Polícia Civil do CE investiga, Diário do Nordeste (2023-11-20)
- Golpes no WhatsApp: guia completo com 20 tipos, PushTech
