Quando se fala em agricultura digital, a imagem que costuma vir à mente é a de um drone sobrevoando a soja ou de um trator que se guia sozinho por satélite. Os dados mostram um quadro mais modesto e mais interessante: a digitalização do campo brasileiro começou pelo celular, pela internet e pelo WhatsApp, e só uma parcela menor dos produtores chegou aos sensores, à automação e à aplicação localizada de insumos. Entender essa distância ajuda a separar o que já é rotina do que ainda é promessa.

O que é, afinal, agricultura digital

Pesquisadores da Embrapa e do Inpe tratam a agricultura digital como o uso de tecnologias de informação ao longo de toda a cadeia de produção: da internet e dos aplicativos de gestão ao sensoriamento remoto, aos sensores de campo e às máquinas automatizadas. Uma revisão de 2024 publicada no repositório da Embrapa propõe uma divisão útil em dois grupos. O primeiro reúne ferramentas de gestão da propriedade, como monitoramento da produção, sensoriamento remoto e internet móvel. O segundo reúne tecnologias de apoio à produção no campo, como amostragem georreferenciada de solo, aplicação de insumos a taxa variável, sistemas de orientação de máquinas e irrigação mais eficiente.

A agricultura de precisão é um subconjunto desse universo: a ideia de tratar cada parte do talhão de acordo com sua necessidade, em vez de aplicar a mesma dose em toda a área.

Quanto o produtor já adota

O retrato mais completo continua sendo a pesquisa feita por Embrapa, Sebrae e Inpe em 2020, com coleta entre 17 de abril e 2 de junho daquele ano. Segundo a Revista Pesquisa Fapesp, ela ouviu 504 produtores e 249 empresas e prestadores de serviço em 556 municípios. O principal número: 84,1% dos produtores usavam ao menos uma tecnologia digital.

O detalhamento mostra onde essa adoção está concentrada. Segundo a Agência Sebrae:

  • 70,4% usavam a internet para atividades ligadas à produção;
  • 57,5% usavam aplicativos ou softwares para obter ou compartilhar informações da propriedade;
  • 22,2% usavam aplicativos ou softwares de gestão da propriedade e da produção.

Já as tecnologias de campo propriamente ditas eram minoria. De acordo com a Revista Pesquisa Fapesp, o sensoriamento remoto (drones, satélites e aviões) era usado por 17% dos produtores, os sensores proximais por 16% e os sistemas automatizados ou robotizados por 7%. O perfil da amostra ajuda a explicar: 72% tinham estabelecimentos de até 50 hectares.

Uma pesquisa privada aponta na mesma direção para os produtores maiores. Na edição de 2022 do levantamento "Mente do Agricultor Brasileiro", a McKinsey informa que 71% dos agricultores pesquisados usavam canais digitais na jornada de compras e que cerca de 50% já adotavam ou planejavam adotar tecnologias de agricultura de precisão nas duas safras seguintes, com destaque para produtores jovens e grandes produtores de grãos.

A base de tudo: conectividade

Nenhuma dessas ferramentas funciona sem sinal. O Censo Agropecuário 2017 do IBGE registrou 1.425.323 produtores com acesso à internet, ante cerca de 75 mil em 2006. É um salto enorme, mas ainda uma fração dos 5.072.152 estabelecimentos contados nos resultados preliminares do mesmo censo. Entre os que tinham acesso, 63,77% usavam internet móvel.

Na pesquisa de 2020, a falta ou a baixa qualidade da conexão aparecia como segunda maior barreira, citada por 47,8% dos produtores, atrás apenas do custo de máquinas, equipamentos e aplicativos (67,1%). Outros entraves eram o custo de contratar prestadores especializados (44%) e o desconhecimento sobre quais tecnologias eram adequadas (40,9%).

Vista aérea de um trator em uma plantação

Irrigação eficiente está entre as tecnologias de apoio à produção no campo · Foto: Mark Stebnicki / Pexels

Como a tecnologia entra na decisão de campo

Na prática, a agricultura digital funciona em três etapas: coletar dados, transformar dados em mapas e usar os mapas para agir.

1. Ver de cima. Satélites e drones geram imagens que revelam diferenças de vigor da lavoura, falhas de plantio ou erosão. Em escala nacional, o mesmo princípio está na base de políticas públicas: segundo a Mongabay, o Inpe produziu para o Ministério da Agricultura um mapa de desmatamento de todo o território, com polígonos a partir de 0,5 hectare, usado na plataforma oficial de rastreabilidade Agro Brasil + Sustentável. No setor privado, a Sibium Analytics, comprada pela xFarm em setembro, diz que suas soluções de sensoriamento chegam a mais de 8 milhões de hectares de cana.

2. Medir no chão. Sensores proximais e análises rápidas de solo complementam a imagem aérea. Um exemplo é a Agrorobótica, incubada na Embrapa Instrumentação, que usa laser e inteligência artificial para analisar o solo. Segundo o Startups, a análise leva 20 segundos, ante até 20 dias pelo método tradicional de laboratório.

3. Agir com precisão. Com os mapas em mãos, o produtor pode aplicar insumos a taxa variável ou redesenhar estruturas da propriedade. Um caso divulgado pela Embrapa Soja em 20 de outubro mostra o método em ação. Em parceria com a Itaipu Binacional, pesquisadores usaram modelos de elevação feitos por drone e software para redimensionar terraços em 115 hectares de uma microbacia em Toledo (PR). Os 43 terraços considerados ineficientes deram lugar a 29 novos, e a capacidade de retenção de água subiu de 22 mm para 71 mm. "Nosso foco é aprimorar o dimensionamento do sistema de terraceamento", explicou o pesquisador Júlio Franchini à Embrapa.

Vista aérea de um trator em uma plantação

A aplicação localizada de insumos depende de mapas feitos a partir de imagens e sensores · Foto: Mark Stebnicki / Pexels

Entrevista de 2022 no Planeta Campo sobre como a Embrapa aplica geotecnologias no campo.
Vídeo: Planeta Campo

O caso dos drones de pulverização

Os drones são a face mais visível da mudança e também a que mais expõe a falta de regras e de mão de obra. A operação aeroagrícola com drones é regida pela Portaria nº 298 do Mapa, publicada em setembro de 2021. Segundo o Canal Rural, ela exige registro do operador no Sipeagro, aeronaves regularizadas na Anac, um profissional com curso de aplicador aeroagrícola remoto e, em certos casos, um engenheiro agrônomo ou florestal como responsável técnico.

Levantamento publicado pelo Economic News Brasil em outubro aponta que o cadastro da Anac tem pouco mais de 13 mil drones declarados para a atividade aeroagrícola, enquanto estimativas do setor falam em frotas bem maiores. A mesma reportagem cita pesquisa do Sindag, com mais de 40 empresas, na qual 85% disseram não encontrar profissionais qualificados para operar drones. O Mapa informou que a revisão da Portaria 298 deveria seguir até o primeiro semestre de 2026, e a página de acompanhamento ainda não registrava conclusão em outubro.

Os limites dos números

Há uma ressalva importante: o principal retrato da adoção digital no Brasil tem seis anos. A pesquisa Embrapa/Sebrae/Inpe foi feita durante a pandemia, por questionário online, o que tende a favorecer quem já está conectado. O Censo Agropecuário mais recente com dados de internet é de 2017. Desde então, a oferta de drones, plataformas e inteligência artificial cresceu, mas não há uma medição pública nacional e atualizada com o mesmo nível de detalhe. A própria revisão de 2024 publicada pela Embrapa aponta a falta de estudos com microdados de produtores de soja sobre os fatores e os impactos dessa adoção.

O que observar daqui para frente

  • Dados atualizados de adoção: uma nova rodada de pesquisa nacional sobre agricultura digital ajudaria a medir quanto sensores, drones e automação avançaram desde 2020.
  • Conectividade nas lavouras, não só nas sedes: a conexão na casa do produtor não garante sinal no talhão, onde máquinas e sensores precisam operar.
  • Nova regra para drones: a conclusão da revisão da Portaria 298 vai definir exigências para um mercado que cresce mais rápido que a formação de operadores.
  • Rastreabilidade como motor: com a lei antidesmatamento europeia valendo a partir de 30 de dezembro de 2026, mapas por satélite e georreferenciamento passam de ferramenta agronômica a requisito comercial.
  • Custo e assistência técnica: sem crédito e sem consultoria acessível, as tecnologias de precisão tendem a ficar concentradas nos grandes produtores.

Fontes