Ninguém sabe ainda o que a IA fará com o que nos define, mas já há estudos sobre efeitos concretos: no que criamos, em como trabalhamos, em como aprendemos e em como nos relacionamos com chatbots. Este texto segue uma regra simples: o que está em estudo aparece como evidência, com seus limites; o que é leitura nossa vem marcado como opinião da Redação.
Criatividade: melhora a obra individual, aproxima as obras entre si
Em experimento publicado na Science Advances em 2024, 293 escritores criaram microcontos de oito frases, sozinhos ou com uma ou até cinco ideias geradas pelo GPT-4. A IA elevou as notas de novidade e utilidade (cerca de 8% e 9% no grupo com cinco ideias), e quem era menos criativo no teste ganhou mais. Mas as histórias com ajuda de IA ficaram mais parecidas entre si, o que os autores descrevem como possível perda de novidade coletiva.
Limites: tarefa curta e restrita, participantes comuns de uma plataforma online (não escritores profissionais), uma só versão de modelo e sem interação livre com a IA. Os resultados não provam o que acontece na arte profissional.
Trabalho: ganho médio, desigual
Um estudo da NBER acompanhou 5.179 atendentes de suporte ao cliente que receberam um assistente de IA. A produtividade, medida em problemas resolvidos por hora, subiu 14% em média. Entre iniciantes, o ganho foi de 34%; entre experientes, o efeito foi mínimo. Os autores veem indícios de que a ferramenta espalha práticas de quem trabalha melhor.
Limites: um único tipo de trabalho e uma só empresa, de modo que não dá para extrapolar para todas as profissões. O texto não mede o que acontece com o emprego no longo prazo. Para cenários de trabalho no Brasil, veja Brasil 2050.
Aprendizado: sinal de alerta, com evidência pequena
A pré-publicação "Your Brain on ChatGPT" comparou três grupos escrevendo redações: com IA, com buscador e sem ferramenta. Participaram 54 pessoas nas três primeiras sessões e só 18 na quarta. Segundo o resumo, o grupo com IA teve menor conectividade cerebral medida por eletroencefalograma, menor senso de autoria dos textos e dificuldade para citar o que escreveu. Na quarta sessão, quem trocou da IA para escrever sem ferramenta mostrou conectividade reduzida.
Limites: amostra pequena, tarefa específica (redação) e estudo ainda sem indicação de revisão por pares nas páginas que lemos. O resultado levanta uma hipótese (depender demais da IA pode reduzir o esforço cognitivo), mas não prova dano duradouro. Para usar IA para estudar com método, veja nossa comparação de IAs para estudo.
Chatbots, solidão e dependência
Um estudo randomizado de quatro semanas, com 981 pessoas e mais de 300 mil mensagens analisadas, testou formas de conversa (texto, voz neutra, voz envolvente) e tipos de assunto (aberto, não pessoal, pessoal). Segundo o resumo, os grupos sorteados não tiveram diferença significativa nos resultados medidos: solidão, convívio com pessoas, dependência emocional e uso problemático. Já quem usava mais por vontade própria, em qualquer grupo, tinha resultados piores, e mais confiança no chatbot se associou a mais dependência emocional.
Limites e como ler: o uso voluntário não é sorteado, então o dado não diz que o chatbot causa solidão. Pode ser que pessoas mais solitárias usem mais. É uma pré-publicação, e lemos só o resumo. Se você sente que está dependendo de um chatbot, converse com alguém de confiança ou com um profissional de saúde mental. Este texto não é orientação clínica.
O que isso tem a ver com "ser humano"?
Os estudos não respondem à pergunta filosófica, mas ajudam a separá-la em partes testáveis:
- Criar: a IA pode ajudar cada pessoa e, ao mesmo tempo, aproximar o que todos produzem.
- Trabalhar: pode reduzir diferenças de desempenho entre iniciantes e experientes naquele caso estudado.
- Aprender: o esforço de pensar importa, e pular essa etapa pode ter custo (hipótese em teste).
- Relacionar-se: conversar com máquinas pode complementar ou substituir pessoas; o uso pesado merece atenção.
Opinião da Redação: nada disso indica que a IA "torna menos humana" a pessoa por si. O que parece decisivo, pelos estudos, é como se usa: como ponto de partida ou como muleta, com ou sem esforço próprio. Essa é uma leitura nossa, que pode estar errada.
Cenário 2035: três possibilidades, nenhuma previsão
Estes cenários são construções da Redação, sem probabilidade atribuída, para ilustrar de que as coisas dependem.
- IA como ferramenta de apoio. Escolas e empresas usam IA com regras claras (por exemplo, esforço próprio antes da ajuda). Ganhos de produtividade vêm com formação e transparência. Depende de políticas educacionais e de regulação.
- Dependência e homogeneização. O uso sem critério empobrece o aprendizado e deixa conteúdos parecidos. Depende de incentivos comerciais por engajamento e da falta de regras.
- Desigualdade de acesso. Quem tem bons recursos e orientação aproveita a IA; quem não tem fica para trás. Depende de acesso à internet, escola e preço. Veja o retrato digital do Brasil.
Qualquer mistura dos três é possível, e há desdobramentos que não conseguimos antecipar.
Para refletir, sem pressa
- Em que tarefas você quer manter o esforço, porque é ali que aprende?
- Quando a IA ajuda e quando ela decide por você?
- Que regras sua escola, empresa ou família tem sobre uso de IA? Se não há, quem deveria propor?
Para acompanhar o debate regulatório, veja a matéria sobre o marco legal da IA na Câmara.
Perguntas frequentes
A IA está nos deixando menos criativos?
O estudo que abrimos mostra o contrário no nível individual (histórias melhores) e um possível efeito coletivo (histórias mais parecidas). É um experimento curto e online, e não vale como veredito.
Usar IA prejudica o cérebro?
Há um estudo pequeno, ainda pré-publicação, que sugere menor esforço cognitivo e menor senso de autoria ao escrever com IA. Não prova dano permanente.
Chatbots causam solidão?
O estudo randomizado com 981 pessoas não achou efeito das condições sorteadas. Quem usava mais por conta própria teve resultados piores, o que não prova causa e efeito.
A IA vai tirar meu emprego?
Os estudos que lemos não respondem isso. O de atendimento ao cliente mostrou ganho médio de 14% de produtividade em um contexto específico, sem medir empregos.
O que fazer para usar IA sem perder habilidades?
Opinião da Redação: tente primeiro por conta própria, use a IA para revisar ou explicar, e confira o que ela responde. Os estudos citados sugerem que o esforço próprio importa.
Isso é previsão sobre 2035?
Não. Os três cenários são exercício da Redação, sem probabilidade, para mostrar do que o futuro pode depender.
Fontes
- Generative AI enhances individual creativity but reduces the collective diversity of novel content, Science Advances (via PubMed Central), Doshi e Hauser (2024-07-12)
- Generative AI at Work, NBER, Brynjolfsson, Li e Raymond
- Your Brain on ChatGPT: Accumulation of Cognitive Debt when Using an AI Assistant for Essay Writing Task, arXiv (pré-publicação) (2025-12-31)
- How AI and Human Behaviors Shape Psychosocial Effects of Extended Chatbot Use: A Longitudinal Randomized Controlled Study, arXiv (pré-publicação) (2025-10-01)
