Mesmo com recordes de doação, a fila por um órgão no Brasil ainda é muito maior do que a oferta. A tecnologia tenta ajudar de várias formas: aproveitar melhor os órgãos doados, preservá-los por mais tempo, testar órgãos de animais geneticamente editados e, mais longe, produzir tecidos em laboratório. Nada disso substitui hoje a doação de órgãos, que continua sendo a base dos transplantes.

Quantas pessoas esperam por um órgão no Brasil

O Registro Brasileiro de Transplantes (RBT), da ABTO, traz os números mais recentes que conseguimos ler na íntegra, com dados de janeiro a setembro de 2025:

  • Em setembro de 2025, havia 72.626 pacientes ativos em lista de espera, somando órgãos e córnea: 38.714 para rim, 1.438 para fígado, 366 para coração, 207 para pulmão e 31.661 para córnea.
  • No mesmo período, foram feitos 7.397 transplantes de órgãos sólidos, dos quais 4.969 de rim, 1.923 de fígado e 317 de coração.
  • A taxa de doadores efetivos chegou a 20,2 por milhão de habitantes, e a ABTO destacou que foi a primeira vez que ultrapassou 20.
  • A não autorização da família foi de cerca de 45% dos casos de potenciais doadores, segundo o editorial do documento. É o gargalo mais conhecido: conversar com a família sobre a doação em vida faz diferença.
  • O RBT também registra óbitos de pacientes em lista no período: 2.852 pessoas ao todo, sendo 2.033 na lista de rim.

Ou seja, a fila existe porque faltam órgãos, mas também porque há perda por não autorização, por contraindicação médica e por aproveitamento limitado de alguns órgãos. A ABTO aponta, por exemplo, que o coração tem aproveitamento de 9,8% dos órgãos doados.

Xenotransplante: órgãos de porco geneticamente editados

Xenotransplante é o transplante de órgãos ou tecidos de uma espécie animal para humanos. Os candidatos mais estudados são porcos editados geneticamente para reduzir a rejeição. É um tratamento experimental, ainda em pesquisa e ensaio clínico, regulado nos EUA pela FDA.

O que já aconteceu, com datas

  • Coração, Universidade de Maryland, janeiro de 2022: David Bennett recebeu um coração de porco em 7 de janeiro e morreu em 8 de março de 2022, cerca de dois meses depois.
  • Coração, Maryland, setembro de 2023: Lawrence Faucette recebeu o órgão em 20 de setembro, com autorização de uso compassivo da FDA para um único paciente. Morreu em 30 de outubro, depois de sinais de rejeição.
  • Rim, Mass General, março de 2024: Richard Slayman recebeu o órgão em 16 de março e deixou o hospital em abril. Morreu em maio de 2024; o hospital disse não ter indício de que a morte tenha sido consequência do transplante.
  • Rim, NYU Langone, 2024 e 2025: uma paciente do Alabama ficou 130 dias com um rim de porco, que foi retirado em abril de 2025 após sinais de rejeição, e voltou à diálise.
  • Rim, Mass General, 2025: segundo um estudo publicado no The Lancet em 2026, um paciente ficou 271 dias sem diálise com um rim de porco, o maior período descrito, até o órgão falhar. Em janeiro de 2026 ele recebeu um rim humano. Os autores descrevem o xenotransplante como uma possível ponte até um órgão humano.

Ensaio clínico em andamento

Em 3 de fevereiro de 2025, a empresa United Therapeutics anunciou que a FDA liberou o pedido de ensaio clínico (IND) para um rim de porco com 10 edições genéticas. O estudo, chamado EXPAND, começa com cerca de seis pacientes e pode chegar a cerca de 50. Um artigo de revisão informa que o primeiro transplante do ensaio ocorreu na NYU Langone em 3 de novembro de 2025. Não encontramos, até 25 de outubro de 2026, resultados publicados do ensaio.

Por que ainda é cedo

  • A rejeição é um desafio constante, como os casos acima mostram.
  • Há risco de infecções de origem animal. A FDA lembra que a regulação tem duas frentes: o órgão em si e as alterações genéticas do animal doador.
  • O número de pacientes é muito pequeno. Não há dados para dizer que o procedimento é seguro e eficaz em larga escala.

Perfusão: preservar o órgão doado por mais tempo

Outra frente mais próxima do uso real é a perfusão, em que o órgão doado é mantido fora do corpo com sangue ou solução em circulação, em vez de apenas resfriado. Em 7 de setembro de 2021, a FDA concedeu aprovação de pré-comercialização (PMA) ao sistema OCS Heart, da TransMedics, para corações de doadores com morte encefálica que seriam considerados inadequados com a preservação a frio, segundo a imprensa do setor. Isso é aval da FDA, nos EUA, para um uso específico. Não encontramos aprovação equivalente da Anvisa para citar.

Robôs e transplantes

A cirurgia robótica também chegou ao transplante em alguns centros. O brief inicial desta matéria citava um "primeiro transplante hepático totalmente robótico em doador vivo em 2026". Não confirmamos essa data. O que encontramos foi uma declaração do hospital saudita King Faisal, relatada em outubro de 2023, de que teria feito o primeiro transplante hepático totalmente robótico com doador vivo, sem validação independente nas fontes que lemos. Nesses casos, quem decide e opera continua sendo a equipe cirúrgica.

E os órgãos impressos?

Impressão 3D de tecidos faz parte da mesma busca por mais órgãos, mas está em estágio muito anterior ao de um transplante. Para o panorama completo, veja a matéria Órgãos 3D: quando poderemos imprimir um coração ou um rim?. Nenhum órgão complexo impresso está pronto para transplante.

Ética e desigualdade de acesso

  • Quem entra na lista: a ABTO estima que a entrada em lista para rim foi de 80% da necessidade, para fígado de 63%, coração 33% e pulmão 8%. Ou seja, muita gente que precisa ainda não chega à fila.
  • Diferenças regionais: os dados da ABTO mostram grande variação por estado em doação, lista e transplante.
  • Tecnologias caras: se o xenotransplante um dia for aprovado, caberá ao sistema de saúde decidir quem terá acesso. No Brasil, essa decisão passaria pela Anvisa e, para o SUS, pela Conitec.
  • Consentimento e risco: pacientes de ensaios aceitam incertezas, inclusive o risco de infecções e a necessidade de acompanhamento prolongado.

O que isso significa para o Brasil

A principal ação ao alcance de qualquer pessoa é avisar a família sobre a vontade de ser doador, já que a negativa familiar foi a principal causa de perda de potenciais doadores. Tecnologias como perfusão e, mais à frente, xenotransplante dependem de pesquisa, aprovação e financiamento. Para o paciente de hoje, a fila e a doação continuam sendo o caminho.

Perguntas frequentes

Já é possível fazer transplante de órgão de porco em pessoas?

Apenas em pesquisa, nos EUA, em número muito pequeno de pacientes e com autorização da FDA. Não é um tratamento aprovado nem disponível no Brasil.

Quanto tempo um rim de porco funcionou em um paciente?

O maior período descrito foi 271 dias, em um paciente do Mass General em 2025, segundo estudo publicado no The Lancet em 2026. O órgão acabou falhando e o paciente recebeu um rim humano em janeiro de 2026.

Quantas pessoas esperam por um transplante no Brasil?

Em setembro de 2025, o RBT da ABTO registrava 72.626 pacientes ativos em lista, incluindo córnea. Para órgãos sólidos, a maior fila é a de rim, com 38.714 pacientes.

Órgãos impressos em 3D já podem ser transplantados?

Não. Órgãos complexos impressos não estão prontos para transplante. A matéria sobre bioprinting explica o estágio atual da pesquisa.

O robô faz o transplante sozinho?

Não. A cirurgia robótica é conduzida por cirurgiões, que controlam os instrumentos. O robô não opera de forma autônoma.

Como posso ajudar a reduzir a fila?

Conversando com a família sobre a vontade de ser doador. A decisão final da doação de órgãos de pessoa falecida depende da autorização familiar, e a recusa foi cerca de 45% dos casos em 2025 segundo a ABTO.

Fontes