Ainda não. Até onde a PushTech conseguiu confirmar, nenhum coração, rim ou fígado impresso em 3D foi transplantado em uma pessoa. A bioimpressão, técnica que usa células vivas misturadas a um gel (a "biotinta") para montar estruturas camada por camada, já produz tecidos simples em laboratório. Órgãos completos, com vasos sanguíneos e função, continuam sendo um desafio de pesquisa, sem prazo confirmado.
O que é bioimpressão (e o que não é)
Uma impressora 3D comum deposita plástico ou metal. Na bioimpressão, a "tinta" contém células vivas e materiais que as sustentam. O objetivo é posicionar cada tipo de célula no lugar certo para formar um tecido. Hoje isso funciona melhor para estruturas finas ou simples, como cartilagem ou modelos de tecido usados para testar medicamentos.
O que já foi feito em pessoas
O exemplo mais citado é a orelha da empresa 3DBio Therapeutics. Em março de 2022, segundo a Smithsonian Magazine, cirurgiões implantaram em uma mulher de 20 anos, nascida com microtia (orelha pouco desenvolvida), uma orelha feita com células de cartilagem da própria paciente e uma biotinta à base de colágeno. Foi um estudo clínico inicial de fase 1/2a, ainda experimental.
O registro oficial do estudo no ClinicalTrials.gov mostra o que veio depois: o estudo foi encerrado em maio de 2023 com 2 participantes inscritos, por decisão da empresa, não relacionada à segurança. Ou seja, o produto não chegou à aprovação de nenhum regulador, e a orelha é cartilagem, não um órgão com função vital.
Por que coração e rim são tão difíceis
Uma revisão publicada em 2025 no Journal of Functional Biomaterials aponta os obstáculos principais: rejeição do tecido, vascularização inadequada e função fisiológica limitada.
- Vasos sanguíneos. Sem uma rede de vasos que leve oxigênio, o tecido espesso morre. A revisão chama a vascularização de "desafio não resolvido".
- Coração. Os remendos cardíacos já bateram em laboratório, mas não se integraram eletricamente quando testados em animais. O ventrículo em miniatura impresso tem escala, durabilidade e força de bombeamento limitadas. A revisão diz que é improvável a aprovação, no curto prazo, de ensaios para troca de uma câmara inteira; o primeiro uso em pessoas pode ser como terapia complementar, como um remendo.
- Rim. O trabalho é, em grande parte, in vitro (em laboratório). Segundo a revisão, nenhum néfron funcional foi construído. O uso inicial esperado é em aplicações auxiliares, como teste de toxicidade e dispositivos de apoio ao rim.
A revisão não dá um prazo em anos. Ela diz apenas que construtos parciais ou de apoio têm mais chance de chegar primeiro à clínica do que o órgão inteiro.
O que o ARPA-H está financiando
O ARPA-H, agência de pesquisa em saúde do governo dos Estados Unidos, lançou em março de 2024 o programa PRINT, com a meta de produzir órgãos personalizados, compatíveis com o sistema imune do paciente, que dispensem remédios imunossupressores. Começa por rim, fígado e coração. Em janeiro de 2026, a agência anunciou as equipes selecionadas, com financiamento de até US$ 176,8 milhões em 5 anos, condicionado ao cumprimento de metas.
Entre elas, a Universidade Wake Forest trabalha com tecido de rim vascularizado, e a Universidade Carnegie Mellon, com um fígado bioimpresso, inicialmente para insuficiência hepática aguda. A Carnegie Mellon declara como meta iniciar testes em humanos em cinco anos. É uma meta de uma equipe, não uma previsão de que será cumprida, e se refere a um ensaio clínico inicial, não a um órgão disponível para transplante.
O papel das células do próprio paciente
Usar células do próprio paciente ou células "universais" é a aposta para evitar a rejeição e o uso de imunossupressores para a vida toda. Isso ainda está em pesquisa: a produção de células em grande escala e em qualidade clínica é um dos três focos técnicos do programa ARPA-H, junto com a biofabricação e o teste em animais.
Quando isso pode chegar aos hospitais
Não encontramos estimativa confiável em fonte primária. O que se pode afirmar, com base nas fontes lidas: hoje a bioimpressão de órgãos sólidos está em estágio de pesquisa; as equipes mais financiadas falam em anos até testes iniciais em pessoas; e o caminho passa por testes em animais, ensaios clínicos e autorização de reguladores (FDA nos EUA, Anvisa no Brasil). Qualquer prazo mais preciso seria especulação da Redação, e preferimos não oferecer um.
O que isso significa para o Brasil
A necessidade é concreta. Segundo o Registro Brasileiro de Transplantes da ABTO, havia em setembro de 2025 no Brasil 72.626 pacientes ativos em lista de espera, somando todos os órgãos e córnea: 38.714 aguardavam um rim, 1.438 um fígado e 366 um coração. As córneas respondem por 31.661 do total. O número muda a cada trimestre, e não localizamos um boletim mais recente com a fila por órgão.
Enquanto a tecnologia está em pesquisa, o que aumenta a chance de quem espera é a doação de órgãos: avisar a família sobre o desejo de doar é uma das ações ao alcance de todos. Para mais sobre medicina e tecnologia, veja a seção Tech Health.
Perguntas frequentes
Já existe órgão impresso em 3D transplantado em humanos?
Não encontramos registro de coração, rim ou fígado impresso e transplantado. O caso mais conhecido é uma orelha de cartilagem, em estudo experimental iniciado em 2022 e encerrado em 2023 por decisão da empresa.
Qual a diferença entre impressão 3D e bioimpressão?
A impressão 3D comum usa materiais como plástico. A bioimpressão usa biotintas com células vivas para tentar formar tecidos.
Por que o coração é mais difícil de imprimir que a orelha?
Porque precisa de vasos sanguíneos, atividade elétrica coordenada e capacidade de bombear sangue sob pressão. Uma orelha é cartilagem, tecido sem grande demanda de oxigênio.
Em quanto tempo poderei receber um órgão impresso?
Não há prazo confirmado. Uma equipe financiada pelo ARPA-H fala em cinco anos para iniciar testes em humanos com um fígado bioimpresso, o que não é o mesmo que órgão disponível para transplante.
A bioimpressão vai acabar com a fila de transplantes?
Ninguém pode afirmar isso hoje. É uma aposta de pesquisa. A fila existe agora, e a doação de órgãos continua sendo a forma de transplante disponível.
Qual o tamanho da fila de transplantes no Brasil?
Em setembro de 2025, segundo a ABTO, eram 72.626 pacientes ativos em lista, incluindo 38.714 para rim e 31.661 para córnea. Os dados mudam a cada trimestre.
Fontes
- Organ-Specific Strategies in Bioprinting: Addressing Translational Challenges in the Heart, Liver, Kidney, and Pancreas, Journal of Functional Biomaterials (PMC12565448) (2025-09-23)
- ARPA-H launches program to bioprint organs on demand, ARPA-H (EUA) (2024-03-27)
- ARPA-H awards teams set to bioprint universally matched organs on demand, ARPA-H (EUA) (2026-01-12)
- AuriNovo for Auricular Reconstruction (NCT04399239), ClinicalTrials.gov (registro oficial do estudo, via API) (2024-03-04)
- Surgeons Transplant 3-D-Printed Ear Made From Patient's Own Cells, Smithsonian Magazine (2022-06-24)
- Registro Brasileiro de Transplantes, 3º trimestre de 2025 (população), ABTO (Associação Brasileira de Transplante de Órgãos) (2025-11-01)
