Em um golpe de falso sequestro, a ligação é o golpe: ninguém foi sequestrado, e o objetivo é fazer você pagar, quase sempre por Pix, antes de conferir. Desligue, ligue de volta para o familiar em um número que você já tem e não pague nada enquanto não falar com ele. Esse é o conselho central das polícias civis ouvidas nesta matéria, e vale ainda mais agora que a inteligência artificial consegue imitar voz. Este texto é um desdobramento do nosso guia com 20 golpes no WhatsApp, que cobre o falso sequestro em um parágrafo.

Como o golpe funciona

Segundo a Polícia Civil de Mato Grosso do Sul, o golpe consiste em ligar informando um suposto sequestro, com um pedido de socorro falso, para provocar pânico. O que acontece em geral, segundo as polícias e a imprensa lidas:

  1. A ligação: alguém diz que sequestrou um parente. Ao fundo há choro, gritos ou uma voz pedindo ajuda.
  2. A pressão: exigem silêncio, urgência e pagamento imediato, hoje geralmente por Pix.
  3. O isolamento: pedem que você não desligue e não fale com mais ninguém, justamente para você não conferir.
  4. A informação que você dá: os golpistas usam o que você diz. A Polícia Civil do MS orienta nunca revelar nome de parentes a desconhecidos ao telefone.

A variação com videochamada

Em 22 de setembro de 2026, o delegado Alysson Pereira Pequeno, chefe da Delegacia Especializada Antissequestro (DAS) do Espírito Santo, explicou à TV Gazeta uma variação mais elaborada, a partir de um caso de 20 de setembro em Cachoeiro de Itapemirim (ES), segundo o jornal A Gazeta:

  • Uma pessoa foi convencida a sair de casa e manter contato com os criminosos por chamada de vídeo, com o pedido de que compartilhasse a tela do celular.
  • Enquanto a primeira vítima ficava ocupada, os golpistas ligavam para os familiares dela dizendo que ela estava sequestrada e exigindo transferências.
  • O delegado alerta que, mesmo em casos reais de sequestro, pagar não garante a libertação da vítima.

A reportagem não informa o total de casos nem estatísticas, e esta matéria também não.

E a voz clonada por IA?

A Federal Trade Commission (FTC), agência americana de defesa do consumidor, alertou em 20 de março de 2023 que golpistas podem usar IA para clonar a voz de um parente: bastam um trecho curto de áudio, que pode vir de conteúdo publicado na internet, e um programa de clonagem. A FTC diz que eles pedem pagamento por meios difíceis de reaver, como transferência, criptomoedas e cartões-presente, e orienta não confiar só na voz: ligar para a pessoa em um número que você sabe ser dela.

No Brasil, o Procon de Pelotas (RS) alertou em março de 2026 que a IA é usada para copiar a fala da vítima e aplicar fraudes por aplicativos de comunicação e telefonia, e que urgência extrema por informação ou dinheiro é indício de fraude. Em 4 de outubro de 2026, o Correio Braziliense descreveu o golpe como áudios que imitam parentes e citou orientações do Banco Central (não transferir dinheiro com base só em pedido recebido por aplicativo) e da Anatel (alerta sobre áudio, imagem e vídeo manipulados), sem que a Redação tenha lido as fontes originais.

O que a Redação não encontrou:

  • Dado oficial de quantos falsos sequestros no Brasil usam voz clonada de verdade. A maior parte dos relatos policiais descreve um golpista que improvisa com choro e pânico, sem IA.
  • Estudo sobre a eficácia da palavra-código (abaixo).
  • Comunicado de 2026 da Febraban ou de polícia civil tratando especificamente de falso sequestro com voz clonada.

Por isso, o texto não afirma que "a maioria" dos falsos sequestros hoje usa IA. A mensagem prática é a mesma nos dois casos: a voz, sozinha, não prova nada.

Sinais de alerta

  • Ligação de número desconhecido, restrito ou a cobrar. A Polícia Civil do MS lembra que policiais e bombeiros não telefonam para informar sobre acidentes.
  • Pedido de sigilo: "não conte para ninguém", "não desligue".
  • Urgência extrema e dinheiro imediato, por Pix, depósito, QR Code, criptomoeda ou cartão-presente.
  • Pedido para compartilhar a tela ou instalar algo. Isso entrega contatos e dados.
  • A pessoa que liga não responde a pergunta que só o familiar saberia.

O que fazer durante a ligação

Orientações das polícias civis (MS e ES) e da FTC, na ordem em que valem:

  1. Mantenha a calma e não dê informação. Não diga nome, idade, onde o parente está nem quem mora com você.
  2. Não pague. Não transfira nada antes de verificar e de falar com a polícia.
  3. Confirme por outro caminho. Se der, enquanto o golpista segue na linha, peça a outra pessoa para ligar para o familiar. Ou desligue e ligue de volta, em um número que você já tem salvo. Se não atender, tente quem possa estar com ele.
  4. Em ameaça imediata, ligue 190.
  5. Registre boletim de ocorrência, presencial ou na delegacia virtual do seu estado, mesmo sem ter pago.

A Polícia Civil do ES orienta ainda a não negociar nem seguir as instruções dos criminosos e a desconfiar de ligações de terceiros com alegações absurdas ou urgentíssimas.

Sobre pedir videochamada: o Procon de Pelotas sugere exigir uma videochamada quando o autor insistir. É uma ideia razoável contra um golpista sem preparo, mas a Redação alerta que vídeo também pode ser manipulado (a Anatel avisa sobre áudio e vídeo falsos) e que a videochamada é justamente a ferramenta da variação de Cachoeiro de Itapemirim. A confirmação mais segura é a que você inicia, ligando para o número que já tinha.

Como se preparar antes: a palavra-código

Combinar com a família uma palavra ou pergunta que só vocês sabem é uma recomendação frequente na imprensa brasileira, inclusive no Correio Braziliense. A Redação não encontrou estudo que meça se funciona, e ela só ajuda se for usada. Se adotar:

  • Escolha algo que não esteja em redes sociais nem em conversas abertas.
  • Combine pessoalmente, evite escrever em mensagem.
  • Defina o que fazer se a pessoa não souber: desligar e confirmar por outro caminho.
  • Lembre os idosos da família. Segundo as polícias, são alvos frequentes.

Outras medidas, ligadas à orientação da Polícia Civil do MS: restrinja as redes sociais a quem você conhece, porque golpistas usam essas informações, e evite postar áudios e vídeos com a voz da família em perfil público. Isso não impede a clonagem, mas reduz o material disponível.

Se você já pagou

Segundo o Correio Braziliense, orienta-se contatar o banco pelos canais oficiais imediatamente e relatar a fraude, e guardar mensagens, números e comprovantes. Para Pix, veja a matéria sobre o mecanismo especial de devolução (MED) e confira o prazo e as condições atuais antes de contar com a devolução. Depois, registre o boletim de ocorrência. Se o golpista teve acesso ao seu celular, veja como recuperar um WhatsApp clonado.

Perguntas frequentes

O que é o golpe do falso sequestro?

É uma ligação em que golpistas dizem ter sequestrado um parente e exigem dinheiro, em geral por Pix, para soltá-lo. Na maioria dos casos ninguém foi sequestrado: o objetivo é gerar pânico para que a vítima pague antes de conferir.

Como saber se é golpe ou sequestro de verdade?

Pela ligação, você não consegue ter certeza, e por isso a orientação é confirmar por um caminho que você controla: ligar para o familiar em um número que já tem, ou pedir a outra pessoa que o faça. Se houver ameaça real, ligue 190. O delegado do ES lembra que, mesmo em sequestros reais, pagar não garante a libertação.

Golpistas conseguem clonar a voz de um parente com IA?

A FTC alertou em 2023 que sim: bastam um trecho curto de áudio e um programa de clonagem. A Redação não encontrou dado oficial sobre a frequência disso em falsos sequestros no Brasil. Trate a voz como algo que pode ser falso.

Devo exigir videochamada?

Não como única prova. Vídeo também pode ser manipulado, e a videochamada é o método da variação de Cachoeiro de Itapemirim. Prefira ligar você mesmo para o número que já tem.

Já paguei, e agora?

Fale com o banco pelos canais oficiais imediatamente, guarde os comprovantes e registre um boletim de ocorrência. A devolução não é garantida.

Fontes