Nenhum banco liga para pedir senha, token ou transferência, e nenhum banco manda alguém buscar o seu cartão. Se a ligação pede qualquer uma dessas coisas, é golpe: desligue e ligue você mesmo para o número oficial do banco, de preferência por outro aparelho. Este texto detalha os itens 9 e 10 do nosso guia com 20 golpes no WhatsApp, porque os dois costumam ser a mesma história em duas etapas.

Como o golpe funciona

Segundo o Banco do Brasil (em seu blog de segurança) e a Febraban (em alerta de março de 2026 noticiado pelo Correio da Manhã, que a Redação não leu na íntegra), a sequência típica é:

  1. A ligação. Alguém se apresenta como funcionário da central de segurança ou gerente do banco. Diz que houve compra suspeita, desconto indevido ou clonagem do cartão, ou que é preciso uma "atualização de segurança". Pode citar dados pessoais reais seus, como no caso julgado pelo STJ (abaixo), o que dá credibilidade à ligação.
  2. O número parece oficial. A Febraban alerta que os golpistas usam spoofing, que mascara o número de origem para parecer que a chamada vem do banco ou da agência.
  3. A ligação que "cai" e não cai. O golpista pede que você desligue e ligue para o número impresso no verso do cartão. Mas a linha continua aberta do lado dele, e quem atende é ele, simulando a central. O Banco do Brasil descreve exatamente isso.
  4. O pedido. Senha, token, código recebido por SMS, instalação de aplicativo ou transferência para uma "conta segura".
  5. O falso motoboy. Se o objetivo é o cartão, o golpista pede que você o corte ao meio e o entregue a um motoboy "enviado pelo banco". O Banco do Brasil lembra que, mesmo cortado, o chip pode ser usado em pagamentos e transferências.

A variação com SMS e o "golpe do 0800" seguem o mesmo roteiro: uma mensagem sobre compra suspeita leva a um número falso, onde o golpista pede dados ou uma transação "para regularizar".

O que os bancos nunca fazem

Segundo o Banco do Brasil e a Febraban (na voz de Raphael Mielle, diretor de Serviços e Segurança da entidade, segundo a reportagem lida):

  • Não pedem senha, token, código de SMS nem dados do cartão, por telefone, mensagem ou e-mail.
  • Não pedem que você faça uma transação para resolver um suposto problema na conta.
  • Não pedem o cartão de volta, nem vencido ou sem uso, e não enviam motoboy à sua casa para buscá-lo.

O que fazer durante a ligação

  1. Desligue. Não discuta, não confirme dado nenhum.
  2. Ligue você mesmo para o banco, pelo número do site ou do aplicativo, e não pelo que apareceu na tela. O Banco do Brasil acrescenta: se a ligação veio de telefone fixo, ligue de outro número, de preferência por celular, porque a linha do golpista pode continuar presa.
  3. Confira o aplicativo do banco para ver se há lançamento estranho.
  4. Não entregue o cartão a ninguém. Se já cortou, bloqueie pelo aplicativo e peça outro.
  5. Ative alertas por SMS ou push para acompanhar movimentações, como recomenda o Banco do Brasil.

Se você já passou dados, pagou ou entregou o cartão

  1. Ligue para o banco agora, pelo canal oficial, e peça o bloqueio do cartão, do aplicativo e das chaves Pix. Rapidez é o que mais importa.
  2. Se houve Pix, peça o MED, o Mecanismo Especial de Devolução. Segundo a Agência Brasil (1º de setembro de 2026), a vítima tem até 80 dias a partir da transferência original para pedir. O banco tem até sete dias no fluxo de fraude para checar sinais de irregularidade, e a devolução depende de haver saldo nas contas envolvidas, podendo ser total ou parcial. Não há garantia. Veja o Pix MED.
  3. Registre boletim de ocorrência e conteste formalmente as transações com o banco, guardando o protocolo.
  4. Guarde as provas: horário e número das ligações, mensagens e extratos.
  5. Troque senhas e remova aplicativos que o golpista tenha pedido para instalar.

O banco responde pelo prejuízo?

Depende do caso, e é aqui que muita gente se engana. Não há resposta automática.

O Superior Tribunal de Justiça (STJ) divulgou em 15 de julho de 2026 uma decisão da Terceira Turma, por unanimidade, no REsp 2.209.868 (relator, ministro Humberto Martins), sobre um golpe da falsa central:

  • Uma cliente recebeu ligação de um 0800 de alguém que se dizia da segurança do banco e citava seus dados. Seguindo as instruções, fez dois Pix (R$ 2.490,99 e R$ 1.000,00) e, no dia seguinte, foi à agência e transferiu R$ 28.000,00 para uma conta indicada pelos golpistas.
  • O tribunal de São Paulo entendeu que os dois Pix eram compatíveis com o histórico da conta, que a transferência grande foi feita pessoalmente e que a cliente não pediu esclarecimentos aos funcionários da agência sobre a ligação.
  • O STJ decidiu que a responsabilidade do banco por esse golpe não é automática: depende da demonstração de falha no serviço, como não identificar operações incompatíveis com o perfil do cliente ou insuficiência dos mecanismos de segurança. No caso, a indenização foi negada.

A decisão, segundo o STJ, não aplicou automaticamente a Súmula 479 (que trata das fraudes de terceiros como risco da atividade bancária). Isso não quer dizer que o banco nunca responde. Em outros casos, com operações fora do perfil do cliente, por exemplo, o resultado pode ser outro. A Redação não é escritório de advocacia e não analisou decisões de outros tribunais. Para um caso concreto, procure um advogado, a Defensoria Pública ou o Procon, e peça o ressarcimento ao banco por escrito.

Uma dica prática que a decisão sugere: se o seu banco tem agência, é melhor perguntar a um funcionário antes de fazer uma transferência grande que alguém mandou fazer por telefone. O golpe depende de você não conferir.

Perguntas frequentes

O banco liga para o cliente?

Pode ligar, mas não para pedir senha, token, código de SMS nem transferência, segundo o Banco do Brasil e a Febraban. Se a ligação pede qualquer uma dessas coisas, desligue e ligue você para o número oficial.

Por que o golpista pede para eu ligar no número do cartão?

Para ganhar confiança. Ele fica na linha, e quem atende é ele mesmo, simulando a central, como descreve o Banco do Brasil. Por isso, ligue de outro aparelho ou use o aplicativo.

O banco manda motoboy buscar cartão?

Não. O Banco do Brasil afirma que bancos não pedem o cartão de volta, inclusive vencido, e não enviam ninguém à casa do cliente para buscá-lo. Cortar o cartão ao meio não protege: o chip pode continuar funcionando.

O banco é obrigado a devolver o dinheiro?

Não automaticamente. Em julho de 2026, a Terceira Turma do STJ decidiu que a responsabilidade do banco pelo golpe da falsa central depende de falha no serviço, como operações incompatíveis com o perfil do cliente. Cada caso é analisado. Procure orientação jurídica.

Já fiz o Pix. O que eu faço primeiro?

Ligue para o banco pelo canal oficial e peça o MED, bloqueie cartão e chaves, registre boletim de ocorrência e guarde as provas. A devolução não é garantida.

Fontes