Se você só tem meia hora para proteger sua vida digital, comece pelo e-mail e pelas contas principais: a conta do Google, a da Apple e a da Microsoft, mais a do gov.br. Elas guardam suas fotos, seus arquivos, seu histórico e, quase sempre, o caminho de recuperação de todas as outras contas. A ordem que vale a pena seguir: uma senha longa e única para o e-mail, a verificação em duas etapas (de preferência com passkey ou chave de segurança, e não só SMS), os códigos de recuperação guardados, um gerenciador de senhas e uma checagem de vazamentos.

Nota: menus, regras e recursos de contas mudam com frequência. Este artigo foi atualizado em outubro de 2026. Confirme os passos nas páginas oficiais de cada serviço.

Por que o e-mail e as contas principais vêm primeiro

Esta é uma explicação da Redação, e não uma regra das empresas: quando você esquece a senha de um serviço, o caminho de recuperação costuma passar pelo seu e-mail ou pelo seu telefone. Quem controla o seu e-mail consegue pedir a redefinição de senha das suas outras contas. E a conta do Google, da Apple ou da Microsoft concentra fotos, arquivos, backups e acesso aos seus aparelhos. Por isso, essas contas são o alvo mais valioso, e proteger bem poucas contas rende mais do que proteger muitas de qualquer jeito.

Passo 1: senha longa e única

O que as diretrizes atuais dizem

O NIST, órgão de padrões dos Estados Unidos, atualizou em 2025 as diretrizes de autenticação (SP 800-63B-4). Elas descrevem o que os serviços devem exigir de quem cria uma senha, e mudam vários hábitos antigos:

  • Tamanho conta mais que símbolos. Quando a senha é a única forma de entrar, o mínimo é de 15 caracteres. Quando ela faz parte de uma verificação em mais de uma etapa, o mínimo é de 8.
  • Sem regras de composição. As diretrizes dizem que os serviços não devem impor exigências como misturar tipos de caractere.
  • Sem troca periódica obrigatória. A troca só deve ser exigida quando houver indício de que a senha vazou.
  • Bloquear senhas vazadas e comuns. Os serviços devem comparar a senha nova com listas de senhas conhecidas ou comprometidas.
  • Permitir gerenciador de senhas e colar. Os serviços devem aceitar preenchimento automático e, de preferência, o ato de colar a senha.

Em português simples: uma senha comprida e que você não usa em nenhum outro lugar vale mais do que uma curta cheia de símbolos, e você não precisa trocar de tempos em tempos sem motivo. Troque quando houver sinal de vazamento ou de invasão.

Como montar uma senha que você consegue lembrar

O NCSC, órgão de segurança cibernética do Reino Unido, recomenda combinar três palavras aleatórias, o que dá uma senha longa e fácil de lembrar. Alguns cuidados que o órgão destaca:

  • Evite senhas comuns, datas importantes, nomes de time, de familiares e de bichos de estimação, porque muita dessa informação está nas suas redes sociais.
  • Trocar letras por números ou símbolos (como o zero no lugar do "o") protege pouco, porque os criminosos conhecem esses truques.
  • Anotar a senha em papel é aceitável se você guardar em lugar seguro.

O ponto que mais importa: cada conta principal precisa de uma senha só dela. Se a mesma senha serve para o e-mail e para uma loja que vazou, o vazamento da loja abre o seu e-mail.

Passo 2: um gerenciador de senhas

Para ter uma senha única em dezenas de contas, é preciso um lugar para guardá-las. O NCSC considera os gerenciadores uma opção segura e diz que vale a pena experimentar um. Eles podem estar embutidos no navegador ou no sistema do celular e do computador, ou ser aplicativos de terceiros. A orientação do órgão:

  • Guardar senhas no navegador ou no aparelho é seguro nos seus próprios dispositivos. A segurança depende dos seus aparelhos e contas, então mantenha as atualizações automáticas ligadas.
  • Não salve senhas em computador compartilhado, como o de uma biblioteca ou de uma faculdade.
  • A senha-mestra é a chave de tudo: precisa ser forte e você precisa lembrar dela, e vale ligar a verificação em duas etapas na própria conta do gerenciador.
  • Gerenciadores de terceiros ajudam quando você usa navegadores e sistemas diferentes.

Esta matéria não recomenda um produto específico. O gerenciador que já vem no seu celular ou no seu navegador é um bom começo, e o que importa é usar algum.

Passo 3: verificação em duas etapas

A verificação em duas etapas (ou autenticação de dois fatores) pede, além da senha, uma segunda prova de que é você. O Google descreve como uma camada extra de proteção para o caso de a sua senha ser roubada. Os métodos que o Google lista:

MétodoComo funcionaO que o Google diz
Passkey (chave de acesso)Você entra com a impressão digital, o rosto ou o bloqueio de tela do aparelhoEstá entre as opções com mais proteção contra phishing, e dispensa a segunda etapa
Chave de segurança físicaUm dispositivo que você conecta ou aproxima para confirmarAjuda a proteger contra phishing
Notificação do GoogleVocê toca em "Sim" em uma notificação no celularRecomendada se você não usa passkey
App autenticadorGera códigos, mesmo sem internetFunciona sem sinal de celular
Código por SMS ou ligaçãoUm código de 6 dígitos enviado ao seu númeroÉ o mais exposto a ataques ao número, como a troca de chip
Códigos de reservaCódigos de 8 dígitos que você guarda para quando perder o celularUso de emergência

O Google ressalta que todos os métodos de duas etapas melhoram a segurança, inclusive o SMS. O melhor é ativar a verificação agora, com o método que você consegue manter, e melhorar depois.

Por que SMS é o elo mais fraco

A CISA, agência de segurança cibernética dos Estados Unidos, afirmou em ficha de outubro de 2022 que métodos baseados em app e em SMS ou ligação são vulneráveis a phishing, ao "bombardeio de notificações" (quando o golpista dispara pedidos até você aprovar por cansaço ou por engano), a falhas do protocolo SS7 e à troca de chip. A agência chama as chaves e passkeys baseadas em FIDO e WebAuthn de padrão de ouro, e trata a confirmação por número (em que você digita um número mostrado na tela) como medida provisória melhor do que o simples toque. É uma ficha de mais de quatro anos, e vale conferir a versão atual em cisa.gov/mfa. O NIST também classifica o SMS e a ligação como método restrito e diz que o e-mail não deve ser usado como segunda etapa. O golpe da troca de chip aparece no nosso guia de golpes no WhatsApp.

Ordem de preferência (da Redação)

Uma síntese das fontes acima, e não uma regra delas:

  1. Passkey ou chave de segurança física, onde o serviço oferecer.
  2. Notificação com confirmação por número, ou app autenticador.
  3. SMS ou ligação, só quando for a única opção.
  4. Nunca informar o código a ninguém. Nenhuma segunda etapa protege quem entrega o código ao golpista. O guia de recuperação do WhatsApp mostra como o golpe do código funciona.

Passo 4: passkeys

Uma passkey, segundo o Google, é uma alternativa mais simples e mais segura à senha: você entra com a impressão digital, o rosto ou o PIN de bloqueio do aparelho, e os dados biométricos ficam no aparelho e nunca são enviados ao Google. O Google diz que passkeys são mais seguras contra phishing e que não podem ser compartilhadas, copiadas, anotadas nem entregues por engano.

Como criar na conta do Google: acesse myaccount.google.com/signinoptions/passkeys, toque em "Criar uma chave de acesso" e desbloqueie o aparelho. Na conta Microsoft: em account.live.com/proofs/manage, adicione uma forma de entrar e escolha rosto, impressão digital, PIN ou chave de segurança, e escolha onde guardar a passkey (no gerenciador da Microsoft, em outro gerenciador sincronizado ou no celular). Em aparelhos Apple, o Google exige o Chaveiro do iCloud ligado para guardar a passkey.

O que saber antes:

  • Exigem bloqueio de tela ligado e versões mínimas de sistema e navegador (o Google cita, por exemplo, Android 9, iOS 16 e Chrome 109 ou mais novos).
  • Uma passkey nova pode levar até 7 dias para valer, a menos que você use um método de confiança para acelerar, segundo o Google.
  • Não crie passkey em aparelho compartilhado. Quem desbloqueia o aparelho entra na conta.
  • Se perder o aparelho, remova a passkey a partir de outro aparelho em que você esteja conectado (no Google, em Segurança e login, Chaves de acesso e de segurança).
  • Passkey não substitui a recuperação. O Google diz que ela não troca os seus métodos de recuperação nem a verificação em duas etapas, e que, com a verificação ligada, a passkey pode dispensar a segunda etapa.

Passo 5: ativar nas contas que mais importam

Conta Google

Em myaccount.google.com, abra "Segurança e login" e, em "Como você faz login no Google", ative a verificação em duas etapas. Siga as instruções na tela. Se a conta for de trabalho ou escola, as regras podem ser definidas pelo administrador.

Apple Account

No iPhone ou iPad, abra Ajustes, toque no seu nome e abra a seção de login e segurança (o nome exato do menu varia por versão) para ligar a autenticação de dois fatores. Na web, entre em account.apple.com. A Apple informa que, se a conta foi criada já com essa proteção, ela não pode ser removida. Em recuperação, a Apple oferece duas opções:

  • Contato de recuperação: uma pessoa de confiança que pode lhe dar um código para redefinir a senha, sem nenhum acesso à sua conta. Pode ter até cinco, e a pessoa precisa ter autenticação de dois fatores e um aparelho Apple atualizado.
  • Chave de recuperação: um código secreto de 28 caracteres. Ao ligá-la, você desliga a recuperação padrão da Apple, e passa a depender de um aparelho confiável ou da chave para voltar à conta. Só ligue se for guardá-la com cuidado, porque perder os dois pode significar perder o acesso.

Conta Microsoft

Em account.live.com/proofs/manage, adicione métodos de verificação e, se quiser, uma passkey. Em contas de trabalho ou escola, a passkey só funciona se a organização oferecer.

Conta gov.br

A verificação em duas etapas do gov.br está disponível para contas de nível prata e ouro, e é ativada no aplicativo gov.br, em "Segurança da conta". Algumas particularidades, segundo a página oficial:

  • O código não vem por SMS. Ele é gerado só no aplicativo do gov.br, pela opção "Gerar código de acesso".
  • Aplicativos autenticadores de terceiros não servem. A página cita Authy, Google Authenticator e Microsoft Authenticator como exemplos que não geram esse código.
  • Deixe data e hora automáticas no celular, ou a verificação pode falhar.
  • Dispositivos autorizados: em um aparelho seu, você pode marcar para não pedir o código de novo no navegador. Em "Dispositivos autorizados" você vê e remove aparelhos e consulta o histórico de acessos.
  • Se perder o acesso ao aplicativo, é preciso pedir a desativação pelo formulário de atendimento da página.

Passo 6: a recuperação, antes de precisar dela

A maior causa de sofrimento com a verificação em duas etapas é perder o celular sem ter a recuperação pronta. Faça agora:

  • Guarde os códigos de reserva (no Google, são códigos de 8 dígitos) impressos ou em um lugar seguro fora do celular.
  • Confira o telefone e o e-mail de recuperação de cada conta principal. No Google, um número novo pode levar até 7 dias para ser validado.
  • Escolha um contato ou uma chave de recuperação na Apple, e entenda a troca antes.
  • Tenha pelo menos dois métodos em cada conta principal (por exemplo, passkey e códigos de reserva).

Passo 7: verificar se você já vazou

O Have I Been Pwned é um serviço gratuito de busca de vazamentos: você digita o seu e-mail e vê em quais vazamentos conhecidos ele aparece. Segundo o próprio serviço, as senhas não são carregadas junto com os e-mails. O ponto mais importante: "não encontrado" não quer dizer "nunca vazou". O serviço reconhece que guarda só parte dos registros, e muitos vazamentos nunca são divulgados. Se o seu e-mail aparecer, troque a senha daquela conta e de qualquer outra que use a mesma, ative a verificação em duas etapas e desconfie de mensagens que citem dados seus.

Checklist de 30 minutos (da Redação)

OrdemO que fazerTempo
1Definir uma senha de três palavras aleatórias, só para o e-mail principal3 min
2Ligar a verificação em duas etapas no e-mail principal5 min
3Criar uma passkey no Google, na Microsoft e na Apple, onde existir5 min
4Guardar os códigos de reserva e conferir telefone e e-mail de recuperação5 min
5Ligar o gerenciador de senhas do celular ou do navegador e começar pelas contas principais5 min
6Ativar a verificação em duas etapas no gov.br (se a conta for prata ou ouro)5 min
7Consultar o e-mail no Have I Been Pwned e trocar o que for preciso2 min

Depois, siga para as outras etapas da trilha de Segurança digital prática: o que fazer se o celular for roubado e como revisar as permissões dos apps.

O que não fazer

  • Não reutilize a senha do e-mail em nenhum outro serviço.
  • Não informe códigos de verificação a ninguém, nem a quem diga ser do suporte.
  • Não crie passkey nem salve senha em computador compartilhado.
  • Não ligue a chave de recuperação da Apple sem guardá-la em lugar seguro.
  • Não deixe só o SMS como segunda etapa se o serviço oferece algo mais forte.
  • Não ignore o aviso de "novo acesso" que o serviço envia: confira se foi você.

Perguntas frequentes

Qual é a senha mais segura?

Uma senha longa, única para cada conta e difícil de adivinhar. O NCSC recomenda três palavras aleatórias, e o NIST diz que o tamanho importa mais do que regras de símbolos, com mínimo de 15 caracteres quando a senha é o único fator.

Preciso trocar minhas senhas de tempos em tempos?

Segundo o NIST, os serviços não devem exigir trocas periódicas, e a troca deve acontecer quando há indício de vazamento ou invasão. Troque quando houver sinal de problema.

SMS é seguro como segunda etapa?

É melhor do que nada, mas é o método mais exposto a ataques ao número, como a troca de chip, segundo o Google, e o NIST o classifica como restrito. Prefira passkey, chave de segurança, notificação ou app autenticador.

O que é uma passkey?

É uma forma de entrar na conta com a impressão digital, o rosto ou o PIN do aparelho, sem digitar senha. Segundo o Google, é mais segura contra phishing e os dados biométricos ficam no aparelho.

A passkey substitui a verificação em duas etapas?

Não substitui os métodos de recuperação nem a verificação em duas etapas, segundo o Google, mas, com a verificação ligada, a passkey pode dispensar a segunda etapa.

Gerenciador de senhas é seguro?

O NCSC considera uma opção segura e recomenda experimentar. Use uma senha-mestra forte, ligue a verificação em duas etapas nele e não salve senhas em computador compartilhado.

E se eu perder o celular?

Use os códigos de reserva e os métodos de recuperação que você configurou. No gov.br, é preciso pedir a desativação da verificação pelo formulário de atendimento. Por isso o Passo 6 deve ser feito antes.

Como ativo a verificação em duas etapas no gov.br?

No aplicativo gov.br, em "Segurança da conta", se a conta for prata ou ouro. O código é gerado só no aplicativo, e não vem por SMS nem funciona em autenticadores de terceiros.

Fontes