Viver mais e viver melhor são metas diferentes. A expectativa de vida do Brasil cresceu muito, mas os dados internacionais indicam que parte dos anos ganhos tem sido vivida com doença. A pesquisa em longevidade tenta atuar justamente nessa diferença, e nenhuma terapia para "retardar o envelhecimento" está aprovada hoje por um regulador para esse fim, segundo as fontes lidas.

O que os números dizem sobre o Brasil

Segundo as Tábuas Completas de Mortalidade de 2024 do IBGE:

  • A expectativa de vida ao nascer foi de 76,6 anos (73,3 para homens e 79,9 para mulheres), 2,5 meses a mais que em 2023.
  • Em 1940, era de 45,5 anos: um ganho de 31,1 anos.
  • A pandemia derrubou o indicador a 72,8 anos em 2021, e ele se recupera desde 2022.
  • Quem chega aos 60 anos espera viver, em média, mais 22,6 anos, contra 13,2 em 1940.
  • De 1.000 pessoas que chegavam aos 60 anos em 2024, 623 completariam 80, contra 213 em 1940.

Expectativa de vida é uma média de uma "tábua" calculada com as taxas de mortalidade de um ano. Não é uma promessa individual, e esconde diferenças grandes de renda, região e sexo.

Viver mais não é viver melhor: a diferença

A expectativa de vida saudável (HALE, na sigla em inglês) tenta descontar os anos vividos com doença ou incapacidade. Pelos dados da OMS, em 2023 a expectativa de vida global era de 73,3 anos e a de vida saudável, de 62,8 anos. A conta simples (73,3 menos 62,8) dá cerca de 10,5 anos, mas essa subtração é cálculo da Redação, e não um número oficial da OMS.

Um estudo de Armin Garmany e Andre Terzic, da Mayo Clinic, publicado em dezembro de 2024 na JAMA Network Open, analisou 183 países entre 2000 e 2019. A diferença entre vida longa e vida saudável subiu de 8,5 para 9,6 anos, uma alta de 13%, segundo o resumo, e foi maior nos EUA (12,4 anos). As mulheres tinham, em média, uma diferença 2,4 anos maior que a dos homens. Há uma ressalva importante: os autores explicam que as estimativas de vida saudável dependem de pesos de incapacidade obtidos em pesquisas, que podem ter vieses. Também ficamos sem o valor para o Brasil, que não consta no texto principal.

Em resumo: vivemos mais, mas os anos extras não vêm necessariamente com saúde.

O que a pesquisa em envelhecimento está testando

O campo parte da ideia de que o envelhecimento é um fator de risco comum para vários males (doenças do coração, câncer, demência). Em vez de tratar uma doença por vez, alguns pesquisadores querem atuar nos mecanismos do envelhecimento. Isso é hipótese em teste, não consenso. Abaixo, o estágio de cada abordagem, com o que as fontes lidas permitem afirmar.

Rapamicina (estágio: ensaios pequenos)

Em humanos saudáveis, o estudo PEARL, publicado na Aging em abril de 2025, foi um ensaio randomizado, duplo-cego e controlado por placebo de 48 semanas, com 114 participantes de 50 a 85 anos que completaram o protocolo. O desfecho principal (gordura visceral) não mudou de forma significativa. Houve sinais em desfechos secundários (massa magra e dor, só em mulheres no grupo de dose maior), mas com amostra pequena. Os próprios autores listam limitações, entre elas adesão autorrelatada, poucas mulheres e o uso de rapamicina manipulada, que pode ter concentração menor no sangue. Conclusão honesta: dá indícios de segurança em 48 semanas nesse grupo, não prova de que retarde o envelhecimento.

Metformina e o estudo TAME (estágio: ensaio planejado)

A metformina é um remédio antigo e barato para diabetes. O TAME é um estudo planejado para testar se ela retarda o surgimento de doenças ligadas à idade, com a meta de 3.000 participantes de 65 a 79 anos, por seis anos. Segundo a cobertura de abril de 2024, o estudo não tinha financiamento completo (cerca de US$ 5 milhões reservados pelo Instituto Nacional do Envelhecimento dos EUA, contra um custo estimado de US$ 45 milhões a US$ 70 milhões), e os benefícios sugeridos até então vinham de estudos observacionais, que não provam causa. Não confirmamos a situação atual do estudo.

Terapias senolíticas (estágio: ensaios iniciais em humanos)

Senolíticos são compostos que tentam eliminar "células senescentes", que deixaram de se dividir e liberam substâncias inflamatórias. Um ensaio de fase 2 com 60 mulheres pós-menopausa, comentado pelo Fight Aging!, testou a combinação dasatinibe e quercetina sobre marcadores ósseos. O desfecho primário (um marcador de reabsorção óssea) não diferiu entre grupos em 20 semanas. Isso é pesquisa inicial, e o resultado do estudo não é um motivo para tomar esses compostos ou suplementos por conta própria.

Limites e questões éticas

Esta seção mistura fatos com reflexão da Redação.

  • Aprovação. Pelas fontes lidas, não há terapia aprovada por regulador para "tratar o envelhecimento". Segundo a cobertura do TAME, a agência americana FDA não reconhece o envelhecimento como doença.
  • Desigualdade. Se um dia houver terapias caras, quem terá acesso? Hoje, o ganho de anos já varia muito por renda e região.
  • Hype e venda de produtos. Clínicas e suplementos de "longevidade" vendem esperança antes da prova. Peça sempre a fonte e o estágio (animal, ensaio pequeno, ensaio grande, aprovado).
  • Foco na saúde, não só na idade. A distância entre vida longa e vida saudável mostra que o objetivo relevante é reduzir os anos com doença, e não apenas somar anos.

O que isso significa para o Brasil

O envelhecimento já é realidade nos dados do IBGE: quanto mais gente chega aos 60 e aos 80 anos, mais pesa o cuidado com doenças crônicas e com autonomia. Esse é um tema de SUS, previdência e cuidado, mais do que de pílulas milagrosas. Para outras tendências que mexem com saúde e sociedade, veja o que significa ser humano na era da IA e vacinas personalizadas contra o câncer. A matéria Brasil 2050 trata de cenários de longo prazo. Veja também os termos do glossário do Futurismo.

Perguntas frequentes

Qual é a expectativa de vida do brasileiro?

Segundo o IBGE, 76,6 anos em 2024: 73,3 para homens e 79,9 para mulheres. É uma média estatística, não uma previsão individual.

O que é expectativa de vida saudável?

É uma estimativa de quantos anos, em média, uma pessoa vive com boa saúde, descontando o tempo com doença ou incapacidade. A OMS estima 62,8 anos para o mundo em 2023, contra 73,3 de expectativa de vida total.

Existe remédio aprovado para retardar o envelhecimento?

Não, pelas fontes lidas. Rapamicina, metformina e senolíticos estão em pesquisa, em estágios diferentes, e nenhum foi aprovado por regulador para essa finalidade.

Vale tomar rapamicina ou metformina para viver mais?

Esta matéria não dá conselho médico. Esses são medicamentos com indicações e riscos próprios e só um médico pode avaliar o seu caso. Os estudos citados não provam que retardem o envelhecimento.

O que é o estudo TAME?

Um ensaio planejado para testar se a metformina retarda doenças da idade em pessoas de 65 a 79 anos. Em abril de 2024, o financiamento ainda era parcial, e não confirmamos a situação atual.

Esta matéria é um conselho médico?

Não. É informação sobre pesquisa e dados públicos. Decisões sobre medicamentos e hábitos de saúde devem ser tomadas com um profissional de saúde.

Fontes