Não, pelo menos não do jeito que o título sugere. Hoje não existe computador quântico capaz de quebrar a criptografia que protege a web. O risco real é outro: dados criptografados e copiados hoje podem ser decifrados no futuro, quando as máquinas ficarem bem mais potentes. Por isso, os órgãos de padronização e grandes empresas já estão trocando os algoritmos.

O que um computador quântico quebraria

A segurança de muitos cadeados digitais (como o RSA e as curvas elípticas) se apoia em problemas matemáticos que computadores comuns levariam um tempo absurdo para resolver. Um computador quântico grande e confiável, rodando o algoritmo de Shor, resolveria esses problemas bem mais rápido. Máquinas assim são chamadas, em relatórios de segurança, de computadores quânticos "criptograficamente relevantes".

Duas funções são afetadas:

  • Troca de chaves (como seu navegador combina uma chave secreta com um site): ameaça relevante já, por causa da cópia de dados.
  • Assinaturas digitais (que provam a identidade de um site, um software ou um certificado): ameaça futura que, segundo o Google, exige migração antes de a máquina existir.

"Colher agora, decifrar depois"

O blog de segurança do Google descreve o risco como "armazenar agora, decifrar depois": alguém copia hoje tráfego criptografado e guarda, esperando poder abri-lo mais tarde. Para informação que precisa continuar secreta por muitos anos (saúde, segredos industriais, dados de Estado), isso pesa mais do que para um chat qualquer.

Onde está o hardware hoje

  • Google: o chip Willow, de 105 qubits, mostrou em dezembro de 2024 que é possível reduzir erros ao aumentar o tamanho do código de correção, resultado publicado na Nature. O próprio Google diz que a tarefa de teste usada ainda não tem aplicação comercial prática.
  • IBM: em novembro de 2025, a empresa apresentou o processador Nighthawk (120 qubits) e o experimental Loon, e mantém a meta de um computador quântico tolerante a falhas, o Starling, até 2029. É uma meta da empresa, não um fato.
  • Quanto seria preciso: em maio de 2025, Craig Gidney, do Google Quantum AI, estimou em preprint que um RSA de 2048 bits poderia ser fatorado em menos de uma semana com menos de 1 milhão de qubits "ruidosos", contra cerca de 20 milhões numa estimativa de 2019. É uma estimativa teórica, com hipóteses específicas sobre erro e velocidade, e nenhuma máquina atual chega perto desse tamanho.

Em resumo: os avanços reduzem a distância, mas a máquina que quebraria o RSA ainda não existe.

O que dizem os especialistas sobre o prazo

O Global Risk Institute consultou 26 especialistas e publicou o relatório em março de 2026. Segundo a página do relatório, a chance de uma máquina capaz de ameaçar a criptografia atual surgir em 10 anos está entre 28% e 49% ("bastante possível"), e entre 51% e 70% em 15 anos ("provável"). São opiniões de especialistas, em faixa de incerteza grande, e não uma data. O Google, por sua vez, fixou 2029 como prazo para migrar seus sistemas, mas o post do Google não afirma que a máquina chegará nesse ano; a leitura da Redação é que se trata de decisão de prudência.

O que já foi padronizado

Em 13 de agosto de 2024, o NIST (instituto de padrões dos EUA) publicou os três primeiros padrões pós-quânticos:

  • FIPS 203 (ML-KEM): para trocar chaves e proteger sites, e-mails e comércio eletrônico.
  • FIPS 204 (ML-DSA): assinatura digital principal.
  • FIPS 205 (SLH-DSA): assinatura digital alternativa, com matemática diferente.

Em março de 2025, o NIST escolheu também o HQC, outro método de troca de chaves, como reserva do ML-KEM caso este fosse vulnerável. Na época, previa um rascunho em cerca de um ano e o padrão final em 2027; não conseguimos confirmar se o rascunho já saiu. O NIST também citou um padrão de assinatura baseado em Falcon (FIPS 206) como esperado. A orientação do órgão é que as organizações comecem a migrar sem esperar novos padrões.

Na prática, a migração já começou: segundo um levantamento da Cloudflare de outubro de 2025, mais de 50% do tráfego humano que passa por ela já usava troca de chaves híbrida com algoritmo pós-quântico. Mas a própria análise lembra que partes difíceis seguem pendentes, como sistemas legados, VPNs, e-mail e dispositivos de IoT.

O que empresas e pessoas devem fazer

Empresas e órgãos públicos:

  1. Faça um inventário de onde há criptografia (sites, VPNs, certificados, aplicativos, dispositivos).
  2. Priorize dados que precisam ficar secretos por muitos anos.
  3. Pergunte a fornecedores sobre suporte aos padrões do NIST e planos de migração.
  4. Trate a troca como projeto de anos, não de fim de semana.

Pessoas: não há um "kit anti-quântico" para comprar. O que ajuda é manter navegador, celular e aplicativos atualizados, porque é por atualização que os algoritmos novos chegam. Desconfie de produtos que prometem "proteção quântica" por conta própria. Para a segurança do dia a dia, as medidas de sempre importam mais, como senha forte e verificação em duas etapas.

O que muda para o Brasil

O ITI, que comanda a ICP-Brasil (a infraestrutura dos certificados digitais), publicou uma instrução normativa em 2026 para adotar algoritmos pós-quânticos, o que alcança a Assinatura Gov.br. O ITI disse pretender aplicar as primeiras assinaturas avançadas pós-quânticas ainda no primeiro semestre de 2026, mas não confirmamos que isso aconteceu. Os algoritmos escolhidos e os prazos detalhados não aparecem na matéria que lemos. Não achamos plano de migração do Banco Central nem de outros órgãos nas fontes que abrimos.

Fato, projeção e opinião

  • Fato: padrões pós-quânticos existem e estão em uso; não existe máquina que quebre o RSA atual.
  • Projeção: estimativas de hardware (Gidney, IBM) e probabilidades de especialistas (Global Risk Institute) variam e podem mudar.
  • Opinião da Redação: o título "quebrar a internet" é exagerado; o risco é gradual e administrável, desde que a migração comece cedo.

Veja termos como qubit e correção de erros no glossário do Futurismo.

Perguntas frequentes

Um computador quântico já consegue quebrar a criptografia da internet?

Não. As estimativas indicam que seria preciso um computador com centenas de milhares ou milhões de qubits de boa qualidade, e as máquinas atuais estão bem abaixo disso.

O que é "colher agora, decifrar depois"?

É copiar hoje dados criptografados para tentar abri-los no futuro com computadores mais potentes. Por isso dados que precisam ficar secretos por muitos anos são os mais sensíveis.

O que é criptografia pós-quântica?

São algoritmos desenhados para resistir a ataques de computadores comuns e quânticos. Rodam em computadores comuns e não dependem de hardware quântico.

Meus dados do WhatsApp ou do banco estão em risco hoje?

Não há notícia, nas fontes que lemos, de ataques quânticos reais a esses serviços. O risco é futuro e depende de cada empresa migrar; mantenha seus aplicativos atualizados.

Quando os computadores quânticos serão uma ameaça real?

Ninguém sabe a data. Em pesquisa com 26 especialistas, a chance em 10 anos ficou entre 28% e 49%. É estimativa, não previsão.

O Bitcoin e outras criptomoedas também são afetados?

Em tese, sistemas que usam assinaturas de curva elíptica seriam afetados. Não abrimos fontes específicas sobre criptomoedas, então não detalhamos o tema aqui.

Fontes