Uma cidade inteligente pode ser as duas coisas ao mesmo tempo: um sistema que avisa a população antes de uma enchente e uma rede que reúne imagens e dados de milhões de pessoas. O que separa uma da outra, nos casos que a PushTech conferiu, não é a tecnologia, e sim quem controla os dados, quais são as regras de uso e se há como auditar.
O que é uma cidade inteligente
É uma cidade que usa sensores, câmeras, aplicativos e análise de dados para gerir trânsito, clima, segurança e serviços. A promessa é decidir com mais rapidez e gastar melhor. O risco é virar um sistema permanente de monitoramento, com dados difíceis de controlar depois de coletados.
Toronto: o projeto que acabou
O Sidewalk Labs, empresa irmã do Google, planejava um bairro tecnológico em Toronto, no Canadá. O plano original cobria 190 acres, e a Waterfront Toronto limitou o projeto a 12 acres. Moradores e organizações questionaram a privacidade dos dados que seriam coletados. Em maio de 2020, o CEO Daniel Doctoroff anunciou o cancelamento e atribuiu a decisão à incerteza econômica provocada pela pandemia. O projeto já enfrentava a controvérsia sobre dados, mas a razão oficial foi econômica; a PushTech não encontrou como separar o peso de cada fator.
Barcelona: dados com foco no cidadão
Em 2018, a então responsável digital da cidade, Francesca Bria, criticou o modelo em que cidades instalam sensores e conectividade primeiro, impulsionadas por grandes fornecedores, e só depois perguntam que problema querem resolver. Segundo a reportagem do ITPro, a ideia era fazer o contrário e usar dados locais sem depender de grandes plataformas. O texto que lemos é de 2018 e foi truncado; não verificamos como o modelo evoluiu desde então.
Rio de Janeiro: o COR e a gestão de crises
O Centro de Operações Rio (COR) foi criado em 2010, depois de chuvas que causaram enchentes e deslizamentos. Segundo o Canaltech, reúne cerca de 4 mil câmeras, radares meteorológicos e pluviômetros, e integra Defesa Civil, bombeiros, CET-Rio, guarda municipal e polícia. Já serviu de base para um alerta de chuva extrema enviado a celulares, o primeiro desse tipo no Rio, depois de uma análise que comparou as condições com uma chuva forte do ano anterior. Aqui, o benefício é concreto: salvar vidas em desastres. A mesma estrutura também auxilia a polícia, por exemplo na leitura de placas, e é essa mistura de usos que pede regras claras.
São Paulo: o Smart Sampa e a pergunta sobre controle
Lançado em julho de 2024, o Smart Sampa chegou a 50 mil câmeras em abril de 2026, segundo a Prefeitura: 20 mil operadas diretamente e 30 mil integradas por parcerias privadas. O sistema faz reconhecimento facial de foragidos, leitura de placas e alertas em tempo real. A Prefeitura informa 2.956 prisões de foragidos pela Guarda Civil e 195 pessoas desaparecidas localizadas.
Em 20 de outubro de 2026, a Baguete, citando apuração do UOL, relatou que dados do sistema ficaram expostos por cerca de 11 meses, com acesso indevido a mais de 58 mil câmeras, inclusive em creches, escolas e hospitais, e 181 logins e senhas expostos. A Prefeitura confirmou o vazamento, atribuiu a um agente com acesso autorizado, afastou o servidor e anunciou medidas como autenticação em dois fatores. O Ministério Público de São Paulo investiga. A PushTech não verificou a versão do UOL na fonte original, e a causa técnica do vazamento é disputada entre as duas versões.
Esse caso mostra que coletar muito dado cria também um alvo. A página da Prefeitura que consultamos não informa quanto tempo as imagens ficam guardadas nem quem pode acessá-las.
Reconhecimento facial: erros não se distribuem igual
Reportagem de 2021 mostrou reconhecimento facial em uso em 20 estados, e o Brasil seguia sem lei específica sobre o tema. Um estudo da Rede de Observatórios da Segurança, de março a outubro de 2019, em cinco estados, apurou que, nos casos com raça registrada, 90,5% das pessoas presas ou abordadas com a tecnologia eram negras. É um recorte antigo e regional, que não representa o país hoje. Pesquisadores ouvidos pela reportagem apontam que algoritmos treinados em outros países erram mais com pessoas negras, em especial mulheres. A PushTech não encontrou dado atual e nacional sobre taxa de erro no Brasil.
LGPD e o vazio da segurança pública
A Lei Geral de Proteção de Dados é a referência para dados pessoais, e imagens do rosto são biometria. Mas, segundo a reportagem de 2021, a LGPD não trata dos mecanismos de reconhecimento facial, e a própria lei reserva a segurança pública a regras específicas. Na prática, isso deixa pouco claro hoje quais limites, prazos de guarda e auditorias valem para câmeras públicas. Esta seção é uma leitura da Redação sobre as fontes citadas, e não consulta jurídica.
Quem fica de fora
Uma cidade inteligente que depende de aplicativos e conexão pode piorar a vida de quem não tem acesso. A TIC Domicílios 2025 estimou 28 milhões de brasileiros sem uso de internet, e que 65% dos usuários acessam só pelo celular, como mostramos em retrato digital do Brasil. Serviço que só funciona por app exclui parte de quem mais precisa dele.
Perguntas para qualquer cidade fazer
Opinião da Redação, não fato: antes de instalar um sistema, vale pedir resposta pública para estas perguntas.
- Qual problema específico a tecnologia resolve, e há dados de que resolve?
- Que dados são coletados, por quanto tempo e quem acessa?
- Há auditoria independente e relatório público sobre erros?
- Existe lei ou norma específica para o uso, em especial de biometria?
- Como fica quem não tem celular nem internet?
Perguntas frequentes
Cidade inteligente é a mesma coisa que cidade vigiada?
Não. Muitas funções, como alerta de chuva e gestão de trânsito, não exigem identificar pessoas. O debate surge quando câmeras com reconhecimento facial e bancos de dados se integram sem regras claras.
O reconhecimento facial é proibido no Brasil?
Não encontramos proibição geral nas fontes que lemos. A reportagem de 2021 afirma que faltava lei específica sobre o tema; confira a situação atual antes de tomar decisão jurídica.
O que a LGPD diz sobre câmeras na rua?
A LGPD protege dados pessoais, mas reserva a segurança pública a regras próprias. Por isso o tema depende de normas específicas. Para um caso concreto, procure orientação jurídica.
O que aconteceu com o Smart Sampa em outubro de 2026?
Segundo a Baguete, citando o UOL, dados do sistema ficaram expostos por cerca de 11 meses. A Prefeitura confirmou o vazamento, atribuiu a um agente autorizado e diz ter reforçado a segurança. O caso é investigado pelo Ministério Público.
Por que o projeto da Sidewalk Labs em Toronto acabou?
A empresa citou incerteza econômica da pandemia. O projeto também enfrentava questionamentos sobre privacidade de dados.
Como o cidadão pode se proteger?
Acompanhe a transparência da prefeitura, use os canais de acesso à informação para perguntar sobre prazos de guarda e acesso aos dados, e procure a ANPD ou o Ministério Público se achar que seus dados foram usados de forma indevida.
Fontes
- Sidewalk Labs Cancels Quayside Smart City Project in Toronto, ArchDaily (2020-05-08)
- How one European smart city is giving power back to its citizens, ITPro (2018-02-14)
- IA e dados para evitar acidentes e enchentes no RJ: saiba como funciona o COR, Canaltech
- Smart Sampa chega a 50 mil câmeras e já supera em 25% o previsto no Programa de Metas, Prefeitura de São Paulo (2026-04-02)
- Smart Sampa vaza dados de 58 mil câmeras, Baguete (cita apuração do UOL) (2026-10-20)
- Sob críticas, reconhecimento facial chega a 20 estados do país, Band B (2021-07-10)
