# IA para prever surtos de dengue: o que já funciona no Brasil e onde ainda erra

> Modelos de previsão já entram no planejamento da vigilância brasileira, mas ninguém acerta sempre: a temporada 2025-2026 mostra por que previsão é cenário, não sentença. Veja como funciona e onde conferir os dados oficiais.

- Editoria: Tech Health
- Autor: Redação PushTech
- Publicado em: 2026-10-26T06:15:00-03:00
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Sim, previsão de dengue com modelos estatísticos e aprendizado de máquina já funciona no Brasil como **apoio ao planejamento** da vigilância, não como bola de cristal. O que há de mais consolidado é o InfoDengue, que publica alertas semanais por município, e o desafio InfoDengue-Mosqlimate, que combina vários modelos numa previsão por estado. A temporada 2025-2026 mostra tanto o valor quanto o limite: o número previsto e o observado até agora parecem bem distantes, e entender por quê faz parte da história.

## O que existe hoje

**InfoDengue.** É uma plataforma da FGV EMAp com a Fiocruz que integra dados epidemiológicos e climáticos. Segundo a própria página, traz atualização semanal com incidência estimada e nível de atenção dos municípios, além de relatórios municipais e estaduais e uma API aberta para pesquisadores.

**Desafio InfoDengue-Mosqlimate (IMDC).** Desde 2024, o consórcio promove uma competição anual: equipes de pesquisa recebem séries históricas de casos prováveis (organizadas a partir do Sinan e do IBGE) e dados de clima, e enviam previsões por estado. Os modelos vão de estatística clássica a aprendizado de máquina. As melhores previsões são combinadas num **ensemble**, que é um "comitê de modelos": em vez de apostar num único método, combinam-se as previsões dos modelos que melhor se saíram em testes com dados passados. Segundo o relatório de 2025, o ensemble da temporada 2025-2026 combinou os cinco melhores modelos.

**Uso real.** O artigo do PNAS sobre a primeira edição relata que os modelos de conjunto foram adotados por autoridades de saúde brasileiras para planejar a resposta à epidemia prevista de 2025. Por isso classificamos o estágio como **uso**: há operação regular, ainda que como ferramenta de apoio. Não encontramos, nas fontes lidas, estudo que meça se o uso dessas previsões reduziu casos ou mortes.

## O que a evidência mostra

- **Nenhum modelo vence sempre.** O PNAS conclui que o desempenho variou entre anos e locais e que nenhum modelo se destacou de forma consistente, principalmente na temporada de 2024, que teve um número de casos sem precedente.
- **Clima ajuda.** No estudo do Rio de Janeiro, a inclusão de temperatura e umidade melhorou a precisão do modelo estatístico SARIMAX, e a combinação de modelos (LSTM com ARIMA) trouxe ganhos adicionais.
- **Horizonte curto é mais fácil.** Uma revisão de 2026 na Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical aponta que Random Forest e LSTM tiveram melhor desempenho em previsões de curto prazo, de até uma semana. Sistemas de alerta mais complexos chegaram a antecipar com até 13 semanas.
- **O comitê acertou razoavelmente em 2024-2025.** O relatório do consórcio apresentou dois cenários (moderado e alto). Na maioria dos estados, a incidência observada ficou dentro da faixa do cenário moderado, embora o modelo tenha superestimado a região Sul.

## A temporada 2025-2026: previsão e realidade

O relatório divulgado em novembro de 2025 estimou **1,8 milhão de casos de dengue** na temporada, definida da semana epidemiológica 41 de 2025 à 40 de 2026. Pela previsão, 54% ficariam em São Paulo e 10% em Minas Gerais. A conclusão do documento foi de "ano com características epidêmicas, mas sem sinais de alcançar os extremos" de 2024, quando o país teve cerca de 6,5 milhões de casos prováveis.

Os números oficiais reportados depois foram bem mais baixos. Segundo a Agência Brasil, de 1º de janeiro a 11 de abril de 2026 foram 227,5 mil casos prováveis, contra 916,4 mil no mesmo período de 2025 (queda de 75%). Segundo o Brasil 61, até 26 de setembro de 2026 eram 470,5 mil, contra 1,5 milhão em 2025 (queda de cerca de 70%). O Ministério da Saúde atribuiu a queda a ações coordenadas com estados e municípios, como a ampliação de armadilhas para o mosquito, insetos estéreis e a expansão do método Wolbachia.

**Atenção para a comparação.** Ela não é exata: 2026 é ano-calendário e a previsão cobre as semanas 41 a 52 de 2025 mais 2026. Mesmo assim, o contraste sugere que a previsão ficou bem acima do que se observou. Isso não prova que o modelo "falhou": o relatório já registrava grande variabilidade entre os modelos. Mas é um lembrete honesto de que previsão de epidemia é cenário com incerteza, e que ações de controle também mudam o resultado.

## Limites que importam

- **Qualidade da notificação.** Os modelos aprendem com casos notificados, não com casos reais. O relatório destaca que o Espírito Santo teve a inclusão de treino e previsão dispensada no desafio por problemas de notificação, e lista como fatores de risco a chikungunya diagnosticada errado como dengue e o Oropouche notificado como dengue.
- **Clima e eventos novos.** Anos atípicos, como 2024, desafiam qualquer modelo treinado no passado. A expansão do sorotipo DENV-3 é citada pelo relatório como fator que pode agravar a situação.
- **Previsão por estado, decisão por município.** O ensemble é estadual. A gestão local precisa de dados municipais e de ação em campo.

## O que isso muda para você

A previsão ajuda gestores a preparar leitos, insumos e campanhas. Para o cidadão, o mais útil é consultar **fontes oficiais**: o InfoDengue (nível de atenção do seu município), o Painel de Monitoramento das Arboviroses do Ministério da Saúde e o boletim da secretaria de saúde do seu estado ou cidade. Em caso de febre ou sintomas, a orientação oficial é procurar uma unidade de saúde; esta matéria não substitui avaliação profissional. Para entender como outras tecnologias entram no cuidado, veja o [guia de perguntas para levar ao médico](/tech-health/perguntas-para-levar-ao-medico-sobre-novas-tecnologias-de-saude) e a matéria sobre [IA que detecta doenças antes dos sintomas](/tech-health/ia-pode-detectar-doencas-antes-dos-sintomas).

## Perguntas frequentes

### A IA consegue prever a dengue com exatidão?
Não. Os estudos lidos mostram que o desempenho varia entre anos e estados e que nenhum modelo se destacou sempre. Por isso se usa um comitê de modelos e se trabalha com faixas de incerteza, não com um número único.

### Quem faz as previsões de dengue no Brasil?
O InfoDengue (FGV EMAp e Fiocruz) publica alertas semanais por município, e o consórcio InfoDengue-Mosqlimate organiza o desafio anual de previsão com equipes de várias instituições. Segundo o PNAS, autoridades brasileiras adotaram o ensemble para planejar a resposta de 2025.

### A previsão de 1,8 milhão de casos se confirmou?
Pelos dados oficiais reportados (470,5 mil casos prováveis até 26/09/2026), os casos ficaram bem abaixo do previsto, mas a comparação não é direta, pois a temporada vai da semana 41 de 2025 à 40 de 2026. Conferimos só reportagens, não o painel oficial.

### Onde vejo a situação da dengue na minha cidade?
No InfoDengue, no Painel de Monitoramento das Arboviroses do Ministério da Saúde e nos boletins da secretaria estadual ou municipal. Sempre confira o ano e a semana epidemiológica dos dados.

### A IA entra na decisão de tratamento da dengue?
As fontes desta matéria tratam de vigilância, ou seja, de previsão para a população. Elas não tratam de diagnóstico ou tratamento individual, que cabem a profissionais de saúde.

### Por que a notificação de casos atrapalha os modelos?
Porque os modelos aprendem com o que foi notificado. Se há subnotificação, atraso ou confusão com outras doenças, como chikungunya e Oropouche, a previsão herda esse erro.

## Fontes

- [Relatório IMDC 2025: Sprint InfoDengue-Mosqlimate (avaliação da temporada 2024-2025 e previsões para 2025-2026)](https://zenodo.org/records/17516518), Zenodo (consórcio InfoDengue-Mosqlimate: FGV, Fiocruz, UFMG e outros) (2025-11-03)
- [Leveraging probabilistic forecasts for dengue preparedness and control: The 2024 Dengue Forecasting Sprint in Brazil](https://doi.org/10.1073/pnas.2508989123), PNAS (resumo lido via Europe PMC, PMID 41678308) (2026-02-01)
- [InfoDengue: integração de dados epidemiológicos e climáticos (alertas semanais por município)](https://info.dengue.mat.br/), InfoDengue (FGV EMAp e Fiocruz) (2026-10-26)
- [Forecasting and Early Warning Systems for Dengue Outbreaks: Updated Narrative Review](https://doi.org/10.1590/0037-8682-0429-2025), Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (resumo lido via Europe PMC, PMID 41563269) (2026-01-01)
- [Assessing dengue forecasting methods: a comparative study of statistical models and machine learning techniques in Rio de Janeiro, Brazil](https://doi.org/10.1186/s41182-025-00723-7), Tropical Medicine and Health (resumo lido via Europe PMC, PMID 40211309) (2025-04-01)
- [Dengue: casos prováveis caem 70% no Brasil em 2026 (dados do Ministério da Saúde até 26/09/2026)](https://brasil61.com/n/dengue-casos-provaveis-caem-70-no-brasil-em-2026-bras2617256), Brasil 61 (2026-10-12)
- [Casos de dengue no Brasil caem 75% em 2026 (dados de 1º/01 a 11/04/2026)](https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2026-04/casos-de-dengue-no-brasil-caem-75-em-2026), Agência Brasil (2026-04-15)
