# IA na sala de cirurgia: o que a tecnologia já apoia, o que ainda é experimental e qual é o papel do cirurgião

> Visão computacional pode reconhecer fases da cirurgia e estruturas do corpo em vídeo, mas a maioria das ferramentas ainda é pesquisa. Veja o que existe, o que é autorizado e por que a decisão continua com o cirurgião.

- Editoria: Tech Health
- Autor: Redação PushTech
- Publicado em: 2026-10-25T08:50:00-03:00
- URL canônica: https://pushtech.tech/tech-health/ia-na-sala-de-cirurgia

Na cirurgia, a inteligência artificial hoje é, sobretudo, uma ferramenta para **apoiar** decisões e análises, e a maior parte ainda está em pesquisa. Algumas tecnologias de navegação e visualização têm autorização de reguladores para usos específicos, mas o cirurgião continua responsável pelo procedimento. Nenhum robô ou software "opera sozinho".

## O que é inteligência cirúrgica

É o uso de dados de cirurgia, como vídeo, imagens de exames e sinais do paciente, para gerar informação que ajude a equipe. O termo cobre desde sistemas que organizam e analisam vídeos depois da operação até ferramentas que mostram sugestões durante o procedimento.

## Visão computacional em cirurgia

A principal aposta é a visão computacional: programas que "enxergam" o vídeo da cirurgia. Uma revisão no *npj Digital Medicine* (2022) explica que essa tecnologia pode extrair informação objetiva e quantitativa do vídeo cirúrgico, mas afirma que nenhuma ferramenta de visão computacional é amplamente usada para fins diagnósticos ou terapêuticos em cirurgia. Segundo os autores, a cirurgia está atrás de áreas como a endoscopia digestiva e a radiologia na chegada à prática.

### Exemplo: a "visão crítica de segurança"

Na retirada da vesícula por vídeo (colecistectomia laparoscópica), a lesão da via biliar é uma complicação séria. Para evitá-la, cirurgiões buscam a chamada Critical View of Safety, um conjunto de critérios visuais que confirmam a anatomia antes de cortar. Um estudo no *Annals of Surgery* (Mascagni e colegas, 2022) treinou um modelo com 2.854 imagens de 201 vídeos para identificar a anatomia e avaliar esses critérios. O modelo atingiu precisão balanceada média de 71,4% na avaliação dos critérios, em imagens estáticas. Isso mostra que a ideia é viável em pesquisa, mas é um resultado de laboratório e não prova que o uso na sala reduza complicações.

### O que a revisão de 2026 conclui

Uma revisão sistemática publicada na *Surgical Innovation* em 2026 reuniu 85 estudos de visão computacional em colecistectomia. Segundo o resumo, o desempenho é relatado de forma heterogênea e falta validação externa. Os autores pedem relatórios padronizados e testes em várias instituições antes do uso clínico.

## Como a IA apoia planejamento e execução

- **Antes:** ajuda a processar imagens de exames para planejar a cirurgia.
- **Durante:** navegação que alinha exames prévios com a anatomia real, ou análises de vídeo em tempo real (em pesquisa).
- **Depois:** indexação de vídeo, documentação e análise para qualidade e ensino.

A revisão do npj Digital Medicine também lista barreiras: poucos dados (em uma pesquisa citada, cirurgiões gravavam menos de 40% dos casos), custo de rotular vídeos, dificuldade de generalizar para outros hospitais e cirurgias abertas, falta de explicação dos modelos e limites de latência em tempo real.

## O que é experimental e o que tem autorização

- **Experimental:** a maior parte das ferramentas de reconhecimento de estruturas e de avaliação de segurança em vídeo, como os estudos acima.
- **Autorizado para usos específicos:** a FDA mantém uma lista pública de dispositivos médicos com IA autorizados nos EUA. A própria agência diz que a lista não é abrangente, e que a grande maioria das entradas visíveis é de radiologia. Existem também sistemas de navegação cirúrgica com IA. Um exemplo é a plataforma Paradigm, da Proprio: em comunicado de abril de 2025, a empresa diz ter obtido sua segunda autorização da FDA pela via 510(k) e que o sistema fornece visualização 3D e medidas durante a cirurgia, comparando o progresso com o plano feito antes. Tudo isso é declaração do fabricante e não foi verificado de forma independente. Autorização da FDA vale para um uso e um país, não indica que o sistema melhora desfechos para todos os pacientes.

Não encontramos nas fontes abertas aprovação da Anvisa para ferramentas de IA em vídeo cirúrgico, e não verificamos se há.

## Modelos 3D, navegação e realidade aumentada

Planejar com modelos 3D e navegação por imagem é mais antigo e mais próximo do uso clínico do que IA que interpreta vídeo ao vivo. O que importa é checar, para cada produto, qual é a indicação autorizada e com que evidência.

## Riscos e limitações

- **Erro e falsa segurança:** um modelo com 71% de precisão balanceada, como no estudo citado, ainda erra com frequência, e o cirurgião poderia confiar demais.
- **Dados não representativos:** modelos treinados em um hospital podem funcionar pior em outro, segundo o editorial de cirurgiões publicado na revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões.
- **Privacidade e consentimento:** gravar cirurgias levanta questões de propriedade e uso dos dados. A revisão do npj Digital Medicine cita um estudo em que 88% de 49 pacientes achavam que deveriam ser donos do vídeo.
- **Falta de evidência clínica:** não encontramos ensaio que mostre redução de complicações com essas ferramentas.

## O papel do cirurgião

No Brasil, o Conselho Federal de Medicina regulamentou a cirurgia robótica na Resolução CFM nº 2.311/2022, divulgada em 30 de março de 2022. Segundo o CFM, ela define a cirurgia robótica como procedimento de alta complexidade, que exige hospital preparado, dois cirurgiões (um no console e outro ao lado do paciente), registro de qualificação de especialista e treinamento específico. O cirurgião principal, que controla o robô, é o responsável pelo procedimento, e o auxiliar precisa poder assumir em emergências ou falhas do equipamento.

Em um editorial na revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, dois cirurgiões descrevem a IA como "parceiro colaborativo" e afirmam que a decisão final permanece com o cirurgião. É uma opinião dos autores, mas está alinhada com o que as normas descrevem para robôs: a máquina é instrumento, a responsabilidade é da equipe.

## O que isso significa para o Brasil

- A norma do CFM sobre cirurgia robótica define exigências de hospital e de formação, mas não trata de IA em vídeo cirúrgico, até onde lemos.
- Pesquisadores já convidam cirurgiões brasileiros a contribuir com bases de dados de vídeo, porque modelos precisam de dados diversos.
- Para pacientes, a pergunta útil é: o equipamento tem registro na Anvisa para esse uso e qual é a experiência da equipe?

Para entender onde a IA já é usada em exames, leia também as matérias da editoria [Tech Health](/tech-health).

## Perguntas frequentes

### A IA já opera sozinha?
Não. Não encontramos aprovação de IA que opere sem supervisão. Os cirurgiões controlam os instrumentos e decidem, e a norma brasileira atribui a responsabilidade ao cirurgião principal.

### O que é a visão crítica de segurança?
É um conjunto de critérios visuais na cirurgia de vesícula por vídeo para confirmar a anatomia antes de cortar, com o objetivo de evitar lesão da via biliar. Pesquisadores testam IA para ajudar a checar esses critérios.

### Esse tipo de IA já foi aprovada?
Para reconhecimento de estruturas em vídeo, os estudos que lemos são de pesquisa. A empresa Proprio declara ter autorização da FDA para uma plataforma de navegação com IA, mas não encontramos evidência de que reduzam complicações. A FDA diz que sua lista de dispositivos com IA não é abrangente.

### A cirurgia robótica usa IA?
Cirurgia robótica é cirurgia comandada por cirurgiões, com instrumentos controlados por console. Ela não é, por si só, cirurgia por IA. Cada produto precisa ser avaliado pelo que declara e tem autorizado.

### Posso pedir para o cirurgião não usar uma tecnologia?
Você pode perguntar qual tecnologia será usada, para que serve, qual a experiência da equipe e quais são as alternativas. A decisão é compartilhada e informada.

### Meus vídeos de cirurgia são gravados?
Depende do hospital e da política local. A revisão científica indica que consentimento e propriedade dos dados são questões em aberto. Pergunte antes e peça por escrito.

## Fontes

- [Artificial Intelligence for Surgical Safety: Automatic Assessment of the Critical View of Safety in Laparoscopic Cholecystectomy Using Deep Learning](https://doi.org/10.1097/SLA.0000000000004351), Annals of Surgery (Mascagni et al., 2022), resumo via Europe PMC (2022-05-01)
- [Computer vision in surgery: from potential to clinical value](https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC9616906/), npj Digital Medicine (Mascagni et al., 2022) (2022-10-28)
- [Computer Vision Applications in Laparoscopic Cholecystectomy: Are We Ready? A Systematic Review](https://doi.org/10.1177/15533506261477478), Surgical Innovation (2026), resumo via Europe PMC (2026-01-01)
- [Could Artificial Intelligence guide surgeons' hands?](https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10668586/), Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões (editorial, Eckhoff e Meireles) (2023-11-23)
- [List of Artificial Intelligence-Enabled Medical Devices](https://www.fda.gov/medical-devices/artificial-intelligence-enabled-medical-devices/list-artificial-intelligence-enabled-medical-devices), FDA (EUA) (2026-06-29)
- [Proprio receives FDA clearance for the world's first AI surgical guidance platform](https://www.propriovision.com/news/proprio-receives-fda-clearance-for-the-worlds-first-ai-surgical-guidance-platform), Proprio (comunicado do fabricante) (2025-04-08)
- [CFM regulamenta a cirurgia robótica no Brasil](https://portal.cfm.org.br/noticias/cfm-regulamenta-a-cirurgia-robotica-no-brasil), Conselho Federal de Medicina (2022-03-30)
