Na cirurgia, a inteligência artificial hoje é, sobretudo, uma ferramenta para apoiar decisões e análises, e a maior parte ainda está em pesquisa. Algumas tecnologias de navegação e visualização têm autorização de reguladores para usos específicos, mas o cirurgião continua responsável pelo procedimento. Nenhum robô ou software "opera sozinho".

O que é inteligência cirúrgica

É o uso de dados de cirurgia, como vídeo, imagens de exames e sinais do paciente, para gerar informação que ajude a equipe. O termo cobre desde sistemas que organizam e analisam vídeos depois da operação até ferramentas que mostram sugestões durante o procedimento.

Visão computacional em cirurgia

A principal aposta é a visão computacional: programas que "enxergam" o vídeo da cirurgia. Uma revisão no npj Digital Medicine (2022) explica que essa tecnologia pode extrair informação objetiva e quantitativa do vídeo cirúrgico, mas afirma que nenhuma ferramenta de visão computacional é amplamente usada para fins diagnósticos ou terapêuticos em cirurgia. Segundo os autores, a cirurgia está atrás de áreas como a endoscopia digestiva e a radiologia na chegada à prática.

Exemplo: a "visão crítica de segurança"

Na retirada da vesícula por vídeo (colecistectomia laparoscópica), a lesão da via biliar é uma complicação séria. Para evitá-la, cirurgiões buscam a chamada Critical View of Safety, um conjunto de critérios visuais que confirmam a anatomia antes de cortar. Um estudo no Annals of Surgery (Mascagni e colegas, 2022) treinou um modelo com 2.854 imagens de 201 vídeos para identificar a anatomia e avaliar esses critérios. O modelo atingiu precisão balanceada média de 71,4% na avaliação dos critérios, em imagens estáticas. Isso mostra que a ideia é viável em pesquisa, mas é um resultado de laboratório e não prova que o uso na sala reduza complicações.

O que a revisão de 2026 conclui

Uma revisão sistemática publicada na Surgical Innovation em 2026 reuniu 85 estudos de visão computacional em colecistectomia. Segundo o resumo, o desempenho é relatado de forma heterogênea e falta validação externa. Os autores pedem relatórios padronizados e testes em várias instituições antes do uso clínico.

Como a IA apoia planejamento e execução

  • Antes: ajuda a processar imagens de exames para planejar a cirurgia.
  • Durante: navegação que alinha exames prévios com a anatomia real, ou análises de vídeo em tempo real (em pesquisa).
  • Depois: indexação de vídeo, documentação e análise para qualidade e ensino.

A revisão do npj Digital Medicine também lista barreiras: poucos dados (em uma pesquisa citada, cirurgiões gravavam menos de 40% dos casos), custo de rotular vídeos, dificuldade de generalizar para outros hospitais e cirurgias abertas, falta de explicação dos modelos e limites de latência em tempo real.

O que é experimental e o que tem autorização

  • Experimental: a maior parte das ferramentas de reconhecimento de estruturas e de avaliação de segurança em vídeo, como os estudos acima.
  • Autorizado para usos específicos: a FDA mantém uma lista pública de dispositivos médicos com IA autorizados nos EUA. A própria agência diz que a lista não é abrangente, e que a grande maioria das entradas visíveis é de radiologia. Existem também sistemas de navegação cirúrgica com IA. Um exemplo é a plataforma Paradigm, da Proprio: em comunicado de abril de 2025, a empresa diz ter obtido sua segunda autorização da FDA pela via 510(k) e que o sistema fornece visualização 3D e medidas durante a cirurgia, comparando o progresso com o plano feito antes. Tudo isso é declaração do fabricante e não foi verificado de forma independente. Autorização da FDA vale para um uso e um país, não indica que o sistema melhora desfechos para todos os pacientes.

Não encontramos nas fontes abertas aprovação da Anvisa para ferramentas de IA em vídeo cirúrgico, e não verificamos se há.

Modelos 3D, navegação e realidade aumentada

Planejar com modelos 3D e navegação por imagem é mais antigo e mais próximo do uso clínico do que IA que interpreta vídeo ao vivo. O que importa é checar, para cada produto, qual é a indicação autorizada e com que evidência.

Riscos e limitações

  • Erro e falsa segurança: um modelo com 71% de precisão balanceada, como no estudo citado, ainda erra com frequência, e o cirurgião poderia confiar demais.
  • Dados não representativos: modelos treinados em um hospital podem funcionar pior em outro, segundo o editorial de cirurgiões publicado na revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões.
  • Privacidade e consentimento: gravar cirurgias levanta questões de propriedade e uso dos dados. A revisão do npj Digital Medicine cita um estudo em que 88% de 49 pacientes achavam que deveriam ser donos do vídeo.
  • Falta de evidência clínica: não encontramos ensaio que mostre redução de complicações com essas ferramentas.

O papel do cirurgião

No Brasil, o Conselho Federal de Medicina regulamentou a cirurgia robótica na Resolução CFM nº 2.311/2022, divulgada em 30 de março de 2022. Segundo o CFM, ela define a cirurgia robótica como procedimento de alta complexidade, que exige hospital preparado, dois cirurgiões (um no console e outro ao lado do paciente), registro de qualificação de especialista e treinamento específico. O cirurgião principal, que controla o robô, é o responsável pelo procedimento, e o auxiliar precisa poder assumir em emergências ou falhas do equipamento.

Em um editorial na revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, dois cirurgiões descrevem a IA como "parceiro colaborativo" e afirmam que a decisão final permanece com o cirurgião. É uma opinião dos autores, mas está alinhada com o que as normas descrevem para robôs: a máquina é instrumento, a responsabilidade é da equipe.

O que isso significa para o Brasil

  • A norma do CFM sobre cirurgia robótica define exigências de hospital e de formação, mas não trata de IA em vídeo cirúrgico, até onde lemos.
  • Pesquisadores já convidam cirurgiões brasileiros a contribuir com bases de dados de vídeo, porque modelos precisam de dados diversos.
  • Para pacientes, a pergunta útil é: o equipamento tem registro na Anvisa para esse uso e qual é a experiência da equipe?

Para entender onde a IA já é usada em exames, leia também as matérias da editoria Tech Health.

Perguntas frequentes

A IA já opera sozinha?

Não. Não encontramos aprovação de IA que opere sem supervisão. Os cirurgiões controlam os instrumentos e decidem, e a norma brasileira atribui a responsabilidade ao cirurgião principal.

O que é a visão crítica de segurança?

É um conjunto de critérios visuais na cirurgia de vesícula por vídeo para confirmar a anatomia antes de cortar, com o objetivo de evitar lesão da via biliar. Pesquisadores testam IA para ajudar a checar esses critérios.

Esse tipo de IA já foi aprovada?

Para reconhecimento de estruturas em vídeo, os estudos que lemos são de pesquisa. A empresa Proprio declara ter autorização da FDA para uma plataforma de navegação com IA, mas não encontramos evidência de que reduzam complicações. A FDA diz que sua lista de dispositivos com IA não é abrangente.

A cirurgia robótica usa IA?

Cirurgia robótica é cirurgia comandada por cirurgiões, com instrumentos controlados por console. Ela não é, por si só, cirurgia por IA. Cada produto precisa ser avaliado pelo que declara e tem autorizado.

Posso pedir para o cirurgião não usar uma tecnologia?

Você pode perguntar qual tecnologia será usada, para que serve, qual a experiência da equipe e quais são as alternativas. A decisão é compartilhada e informada.

Meus vídeos de cirurgia são gravados?

Depende do hospital e da política local. A revisão científica indica que consentimento e propriedade dos dados são questões em aberto. Pergunte antes e peça por escrito.

Fontes