O robô cirúrgico em uso nos hospitais não opera sozinho. A própria FDA, regulador de dispositivos médicos dos Estados Unidos, descreve esses sistemas como equipamentos que "não podem realizar cirurgia sem controle humano direto". O cirurgião senta em um console, vê o campo em 3D e comanda cada instrumento. Pesquisas com cirurgia autônoma existem, mas, até onde a PushTech conseguiu confirmar, estão no estágio de laboratório: animais, modelos e órgãos fora do corpo.
Como funciona uma cirurgia robótica
Segundo a FDA, um sistema de cirurgia assistida por robô tem três partes: um console, onde o cirurgião trabalha; um carrinho ao lado do paciente, com braços mecânicos e câmera (endoscópio); e outro carrinho com equipamentos de apoio. Os instrumentos entram por pequenos cortes. Os movimentos das mãos do cirurgião são reproduzidos pelos braços do robô.
A FDA informa que já autorizou esses dispositivos para cirurgias laparoscópicas em áreas como geral, cardíaca, colorretal, ginecológica, de cabeça e pescoço, torácica e urológica, por médicos treinados em ambiente de centro cirúrgico. Exemplos citados: retirada da vesícula, histerectomia e prostatectomia.
O papel do cirurgião
No modelo atual o robô é uma ferramenta de precisão, não um profissional. Ele pode filtrar tremores e permitir movimentos mais finos, mas não decide o que cortar. A equipe continua à beira do leito, e a responsabilidade pelo ato é humana. A FDA também lembra que não credencia nem fiscaliza o treinamento dos médicos: essa responsabilidade é dividida entre fabricantes, médicos e hospitais.
Robô, automação e autonomia: qual a diferença
- Robô controlado pelo cirurgião (uso atual): cada movimento é comandado por uma pessoa.
- Automação de uma tarefa: o robô executa uma etapa definida, como uma sutura, enquanto o cirurgião supervisiona. Está em pesquisa.
- Autonomia ampla: o sistema decide e executa um procedimento. Não existe em uso clínico, até onde conseguimos confirmar.
Dois estudos publicados na revista Science Robotics mostram onde a pesquisa está:
- STAR (2022): um sistema autônomo realizou suturas de anastomose intestinal (união de duas pontas do intestino) em modelos artificiais e em porcos, com acompanhamento de uma semana. O sistema gerou planos e o operador escolheu um; o robô executou. Os autores relatam desempenho superior ao de cirurgiões em consistência e precisão da sutura.
- SRT-H (2025): um sistema realizou a retirada da vesícula em oito vesículas fora do corpo (ex vivo), com sucesso nas oito e sem intervenção humana durante os procedimentos, segundo o resumo do artigo.
Nenhum dos dois é cirurgia em pessoa. Passar de órgão isolado ou animal para pacientes, com variações anatômicas e imprevistos, exige novos ensaios clínicos e autorização de reguladores. Não há prazo confirmado para isso.
O que os estudos mostram sobre resultados
O quadro é de benefício em alguns pontos e de pouca diferença em outros:
- Câncer de reto (ROLARR, JAMA, 2017): 471 pacientes; a conversão para cirurgia aberta foi de 8,1% com robô e 12,2% com laparoscopia convencional, diferença sem significância estatística. Margem cirúrgica comprometida: 5,1% contra 6,3%, também sem diferença significativa.
- Câncer colorretal (meta-análise de 9 ensaios, 2.758 pacientes, 2025): o robô teve cirurgias mais longas, menos conversões para cirurgia aberta, mais linfonodos retirados e menos margens comprometidas; segurança, mortalidade e complicações foram comparáveis. Os autores dizem que custo-efetividade e impacto oncológico a longo prazo precisam de mais estudo.
- Cistectomia (retirada da bexiga, meta-análise de ensaios, 2022): sem diferença em sobrevida (HR 0,98) nem em recorrência (HR 0,99) entre robô e cirurgia aberta; menos transfusões e operação mais longa com o robô.
Em resumo: o robô pode ajudar em certos procedimentos, mas não há comprovação geral de que "seja sempre melhor".
Um alerta da FDA: nenhum dispositivo robótico foi autorizado por ela para prevenir ou tratar câncer. As autorizações se baseiam em acompanhamento de curto prazo (30 dias), então sobrevida e recidiva a longo prazo não estão estabelecidas. A agência também informa que não há autorização para mastectomia assistida por robô.
Vantagens e limites
Entre as vantagens estudadas estão menos transfusões em alguns procedimentos e, em certos casos, menos conversão para cirurgia aberta. Entre os limites: operações muitas vezes mais longas, curva de aprendizado e custo alto. A FDA recebe relatos de falhas de equipamento, lesões e mortes, e ressalta que um relato isolado não prova defeito do aparelho.
O que isso significa para o Brasil
Segundo o relatório da Conitec (comissão que avalia tecnologias para o SUS), o sistema da Vinci é o único registrado na Anvisa e, portanto, o único que pode ser usado no país. A indicação aprovada pela Anvisa, segundo as instruções de uso, inclui procedimentos urológicos, laparoscópicos gerais e ginecológicos, entre outros.
Em agosto de 2025, a Conitec recomendou por unanimidade a incorporação da prostatectomia radical assistida por robô ao SUS, para câncer de próstata localizado ou localmente avançado. A decisão foi oficializada pela Portaria SECTICS/MS nº 72/2025. Segundo a imprensa, as áreas técnicas têm até 180 dias para efetivar a oferta, e protocolos, centros de referência e treinamento ainda precisam ser definidos. Não confirmamos se a oferta já começou.
O próprio relatório dá os números e as ressalvas:
- Em ensaios randomizados, o robô reduziu em 83% a necessidade de transfusão em comparação com a cirurgia aberta; não houve diferença significativa em relação à laparoscópica.
- A evidência foi classificada como de qualidade moderada a baixa.
- O robô mostrou-se mais caro que a cirurgia aberta por ano de vida com qualidade, e menos caro que a laparoscópica, em cenários de 150 a 400 cirurgias por ano.
- O impacto orçamentário em cinco anos pode ser de aumento ou de economia, dependendo do volume de cirurgias e do ajuste de custos.
O relatório descreve a prostatectomia robótica como de "alto custo financeiro" e ainda pouco disseminada no país. Não encontramos fonte oficial com o número de robôs em operação, nem o custo para o paciente na rede privada, e por isso não os informamos.
Para entender como outras áreas da robótica lidam com segurança, veja robótica e physical AI.
Perguntas frequentes
O robô cirúrgico opera sozinho?
Não. Nos sistemas em uso, o cirurgião comanda todos os movimentos. A FDA diz que o dispositivo não realiza cirurgia sem controle humano direto. Sistemas autônomos existem apenas como pesquisa, em animais e órgãos fora do corpo.
A cirurgia robótica é melhor que a convencional?
Depende do procedimento. Estudos mostram benefícios pontuais, como menos transfusões ou menos conversões, e ausência de diferença em outros desfechos, como sobrevida em alguns cânceres. Seu cirurgião é quem pode avaliar qual via é indicada para o seu caso.
O robô cirúrgico é aprovado no Brasil?
O sistema da Vinci está registrado na Anvisa, segundo o relatório da Conitec, para as indicações descritas nas instruções de uso. O registro vale para o equipamento, não é garantia de que seja a melhor opção para cada paciente.
O SUS faz cirurgia robótica?
O SUS incorporou, pela Portaria SECTICS/MS nº 72/2025, a prostatectomia radical assistida por robô para câncer de próstata. Não confirmamos se a oferta já está disponível; segundo a imprensa, havia prazo de até 180 dias para as áreas técnicas organizarem a oferta.
Cirurgia robótica é mais segura?
Os estudos lidos não mostram diferença geral de segurança e mortalidade em alguns procedimentos. A FDA registra relatos de falhas e eventos adversos. A segurança depende também da experiência da equipe.
Quando haverá cirurgia totalmente autônoma em pessoas?
Não há prazo confirmado. Os experimentos atuais foram em modelos, porcos e órgãos fora do corpo. Seria necessário passar por ensaios clínicos e autorização de reguladores.
Fontes
- Computer-Assisted Surgical Systems (Robotically-Assisted Surgical Devices), FDA (EUA) (2026-09-24)
- Relatório para a sociedade nº 555: Prostatectomia radical assistida por robô, Conitec / Ministério da Saúde (2025-10-02)
- SUS usará robôs em cirurgias contra o câncer de próstata, Olhar Digital (2025-10-03)
- Effect of Robotic-Assisted vs Conventional Laparoscopic Surgery on Risk of Conversion to Open Laparotomy Among Patients Undergoing Resection for Rectal Cancer: The ROLARR Randomized Clinical Trial, JAMA (PubMed 29067426) (2017-10-24)
- Redefining Precision: A Systematic Review and Meta-Analysis of RCTs Comparing Robotic-Assisted Versus Laparoscopic Surgery in Colorectal Cancer, Journal of Surgical Oncology (PubMed 41020446) (2025-09-01)
- Robotic-assisted Versus Laparoscopic Versus Open Radical Cystectomy: A Systematic Review and Network Meta-analysis of RCTs, European Urology Focus (PubMed 36529645) (2022-12-01)
- Autonomous robotic laparoscopic surgery for intestinal anastomosis, Science Robotics (PubMed 35080901) (2022-01-26)
- SRT-H: A hierarchical framework for autonomous surgery via language-conditioned imitation learning, Science Robotics (PubMed 40632876) (2025-07-09)
