Neste domingo (25), brasileiros votam no segundo turno para presidente e governador, e a urna eletrônica volta ao centro da conversa. O que dá para dizer com base nos documentos públicos do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e em observadores externos é mais específico do que "é seguro" ou "não é": a urna é um computador de uso único, isolado de redes, cujo resultado pode ser conferido por vários caminhos independentes.
O que é a urna
A urna brasileira é um equipamento de votação eletrônica de registro direto: o eleitor digita o número, confere a tela e confirma. Segundo o TSE, ela não tem hardware de rede, nem com fio nem sem fio, e roda um Linux preparado pela Justiça Eleitoral sem programas de acesso remoto. O único cabo é o de energia, e a bateria interna mantém o equipamento ligado se a luz faltar.
Os votos são gravados no Registro Digital do Voto (RDV), em ordem embaralhada, para que a sequência de gravação não revele quem votou em quem. Os dados são protegidos por criptografia e assinatura digital.
A cadeia de segurança antes da eleição
A proteção não começa no domingo. O TSE descreve um ciclo com etapas verificáveis por quem não é da Justiça Eleitoral:
- Software assinado e lacrado. Os programas são compilados, assinados digitalmente e lacrados em cerimônia pública em Brasília, e só então distribuídos aos tribunais regionais. A urna executa apenas o sistema assinado.
- Lacres físicos. Os lacres das urnas são produzidos pela Casa da Moeda do Brasil, numerados em sequência, e evidenciam a violação.
- Fiscalização. Partidos e outras entidades autorizadas pelo TSE podem acompanhar a preparação e as auditorias, dentro das regras da Justiça Eleitoral.
- Preparação distribuída. As urnas só são levadas aos locais de votação na véspera, e como os sistemas são programados previamente, não podem ser usadas antes do dia.
No dia da votação
Ao ser ligada pela manhã, a urna emite a zerésima, documento que comprova que todos os candidatos estão cadastrados e que nenhum tem voto. Ao fim da votação, imprime o Boletim de Urna (BU), com o total de votos daquela seção, em várias vias, uma delas afixada na própria seção. O BU tem QR Code, e qualquer pessoa pode comparar o papel afixado com o resultado divulgado depois.
Para a apuração, a urna não "manda" nada pela internet. A mídia com o resultado é retirada e levada a um computador do cartório eleitoral, e a transmissão ao TSE usa canal criptografado. O TSE confere se o resultado foi assinado com a chave daquela urna específica, e os BUs são publicados para comparação com os impressos.
Há ainda o Teste de Integridade, feito em todas as eleições desde 2002: urnas sorteadas são votadas em paralelo, com cédulas de papel e câmeras filmando os números digitados, e o resultado eletrônico é comparado com o papel.
Por que uma fraude em larga escala é tão difícil
Nenhum sistema é infalível, e o TSE não diz isso. A questão prática é o que um ataque precisaria vencer ao mesmo tempo:
- Isolamento. Sem hardware de rede, não há caminho remoto convencional para alterar votos durante a votação.
- Software controlado. A urna só roda o que foi assinado na cerimônia de lacração, e há conferência da integridade antes de a votação começar.
- Evidência física. Violar lacres deixa marca visível, em milhares de seções espalhadas pelo país.
- Conferência pública. Cada BU afixado pode ser fotografado e comparado com o resultado divulgado e com o arquivo digital da seção.
- Auditoria independente. O Teste de Integridade compara urna e papel no próprio dia, e partidos e entidades podem auditar.
Mudar uma eleição nacional exigiria alterar equipamentos, software, lacres, boletins e totalização em um grande número de seções, sob a vista de fiscais de partidos e de observadores. Essa combinação é o que torna a fraude em escala improvável, e não uma única barreira.
O que mostram os testes públicos
Antes de cada eleição geral, o TSE abre os sistemas a um Teste Público de Segurança, em que especialistas externos tentam violar a integridade ou o sigilo do voto. A edição de 2025 foi realizada de 1º a 5 de dezembro, na sede do TSE, em Brasília. Foram apresentados 109 planos de ataque, dos quais 38 foram aprovados. Segundo o TSE, 29 foram executados e seis tiveram achados considerados mitigáveis. As comissões concluíram que nenhum deles representava risco efetivo à integridade, ao sigilo do voto ou ao resultado das eleições, e os sistemas testados são os que serão usados em 2026.
Circularam postagens dizendo que hackers "invadiram as urnas" em 35 ataques. A Aos Fatos checou e classificou a afirmação como falsa: foram 29 ataques executados, e nenhum alterou votos ou resultados. O teste, vale lembrar, é um exercício controlado e não uma invasão em condições reais de eleição, e os achados servem justamente para corrigir os sistemas, que depois são reexaminados no Teste de Confirmação.
O que dizem observadores independentes
- Carter Center. Em 2022, a organização enviou uma missão de especialistas a convite do TSE, com escopo limitado: avaliou a tecnologia de votação, a desinformação sobre ela e o quadro legal, e disse que não faria uma avaliação do processo eleitoral como um todo. Segundo a PolitiFact, a equipe encontrou procedimentos de auditoria extensos e a conselheira da entidade afirmou desconhecer evidência de fraude.
- OEA. A missão da Organização dos Estados Americanos registrou, no relatório preliminar do segundo turno de 2022, que a urna comprovou eficácia, segundo a cobertura do BNews. A missão também ressalvou que a biometria foi um dos fatores de atraso em locais de votação.
Esses documentos reconhecem controles, mas não dizem que não existam limites.
Os limites do sistema
- Não há comprovante impresso para o eleitor. A urna usada hoje não emite recibo individual do voto. O TSE defende que o voto impresso reintroduziria intervenção humana e riscos de transporte, armazenamento e custódia dos papéis. Quem discorda argumenta que o recibo permitiria uma conferência independente do software. Nesse modelo, a confiança recai sobre o software, os testes e as auditorias, e por isso a transparência dos processos importa.
- Boa parte da prova é documental e institucional. A conferência por BU e RDV depende de que fiscais e entidades de fato examinem os documentos.
- Segurança eleitoral não é só tecnologia. Envolve governança, fiscalização, comunicação pública e combate à desinformação.
Como conferir você mesmo
Na saída da seção, você pode fotografar o BU afixado e, depois, comparar com os dados publicados pelo TSE. O BU tem QR Code que o aplicativo "Boletim na Mão", do TSE, consegue ler.
Perguntas frequentes
A urna eletrônica está conectada à internet?
Não. Segundo o TSE, ela não tem hardware de rede, nem com fio nem sem fio. O resultado é levado ao cartório em uma mídia e transmitido por canal criptografado a partir do computador do cartório, e não pela urna.
É possível saber em quem eu votei?
Os votos são gravados em ordem embaralhada no RDV, justamente para impedir que a sequência de gravação revele o voto de alguém.
O que é o boletim de urna?
É o documento impresso ao fim da votação com os totais da seção. Uma via fica afixada no local, e os BUs são publicados para comparação com o resultado oficial.
O Teste Público de Segurança provou que a urna pode ser invadida?
Não. Em 2025, segundo o TSE, 29 planos foram executados, seis tiveram achados mitigáveis e nenhum representou risco efetivo à integridade, ao sigilo ou ao resultado. A afirmação de que as urnas foram "invadidas" em 35 ataques foi classificada como falsa pela Aos Fatos.
Por que a urna não imprime um comprovante para o eleitor?
O TSE argumenta que o voto impresso criaria riscos de transporte, armazenamento e custódia. A ausência do comprovante é uma das principais críticas ao modelo, e o sistema se apoia em auditorias e transparência no lugar do recibo.
Fontes
- Você sabia? A urna eletrônica não fica ligada a nenhum dispositivo da internet, Tribunal Superior Eleitoral
- Por que a urna eletrônica é segura, Revista Eletrônica da Escola Judiciária Eleitoral (TSE)
- Casa da Moeda do Brasil é responsável pela produção dos lacres de segurança das urnas eletrônicas, Tribunal Superior Eleitoral
- Teste de Integridade garante segurança do processo eletrônico de votação, Tribunal Superior Eleitoral
- Você já ouviu falar do Boletim de Urna, mas sabe o que ele é?, Tribunal Superior Eleitoral
- Faltam 7 dias: veja qual é o caminho do voto depois de encerrada a votação, Tribunal Superior Eleitoral
- Teste da Urna 2025 tem 38 planos aprovados após fase de recursos, Tribunal Superior Eleitoral
- Teste da Urna 2025 confirma segurança dos sistemas eleitorais, Tribunal Superior Eleitoral
- Hackers invadiram urnas eletrônicas em teste de segurança? Não, é falso, Aos Fatos
- Carter Center Brazil Election Expert Mission 2022, The Carter Center (2022-10-05)
- Tucker Carlson's unfounded claim that Brazil's election was rigged, PolitiFact (2023-01-11)
- Armazenamento de comprovantes do voto impresso aumentaria risco de fraudes, afirma TSE, Folha de Pernambuco
- Relatório da OEA diz que urna eletrônica comprovou eficácia durante segundo turno, BNews
