Ainda não há usina de fusão gerando eletricidade, e uma reportagem brasileira de 2026 cita 2040 a 2050 para as primeiras plantas comerciais, uma estimativa, não um compromisso. A fusão avançou de verdade em laboratório, mas "energia ilimitada" é exagero: o combustível é abundante, não infinito, e construir e operar uma usina tem custo, resíduos e limites técnicos.
O que é fusão e por que é difícil
Fusão é juntar núcleos leves, como isótopos de hidrogênio, liberando energia, o processo que alimenta o Sol. A fissão, usada nas usinas atuais, divide núcleos pesados. Para fundir, é preciso condições extremas, como temperaturas acima de 100 milhões de graus segundo a reportagem do Olhar Digital, e manter o plasma estável é o grande desafio. Controlar isso de forma contínua e barata é o que ninguém demonstrou ainda numa usina.
O marco do NIF: o que foi provado
O National Ignition Facility (NIF), do laboratório LLNL, nos EUA, usa 192 lasers para comprimir uma cápsula de combustível. Em 5 de dezembro de 2022, o DOE anunciou que o experimento entregou 2,05 megajoules (MJ) de laser ao alvo e obteve 3,15 MJ de energia de fusão: a primeira "ignição" em laboratório.
A página de marcos do LLNL lista resultados posteriores:
| Data | Laser no alvo | Energia de fusão |
|---|---|---|
| 5/12/2022 | 2,05 MJ | 3,15 MJ |
| 8/4/2025 | 2,08 MJ | 8,6 MJ (ganho do alvo 4,13) |
| 20/6/2026 | não informado na página | 7,9 MJ (ganho cerca de 3,8) |
Segundo a mesma página, houve outras ignições entre esses marcos. Nem todos os disparos têm ganho alto: um de outubro de 2025 rendeu 3,5 MJ a partir de 2,065 MJ.
Ganho do alvo não é ganho de usina
Aqui está a distinção que mais confunde:
- Ganho do alvo: energia de fusão dividida pela energia do laser que chega ao alvo. É o que o NIF mede.
- Ganho de planta (de engenharia): eletricidade entregue dividida por toda a eletricidade consumida pela instalação.
Segundo a cobertura da World Nuclear News, o ganho do alvo exclui a energia, muito maior, retirada da rede para operar o sistema, e estimativas citadas na reportagem indicam que uma usina comercial pediria reações que liberassem de 30 a 100 vezes a energia do laser. Além disso, ainda seria preciso converter o calor em eletricidade. Ou seja: o NIF provou o princípio físico da ignição, não a geração de eletricidade. O DOE diz no próprio comunicado que "muitos avanços científicos e tecnológicos ainda são necessários" para chegar a energia de fusão acessível.
ITER e o caminho do magnetismo
O ITER, na França, é um projeto internacional de tokamak (câmara em forma de rosca, com campos magnéticos). Sua meta é produzir cerca de 500 MW de potência de fusão por 400 segundos a partir de 50 MW de aquecimento do plasma, um ganho de plasma de 10, mas sem produzir eletricidade para a rede.
Em julho de 2024, o Physics World informou um novo cronograma, com atraso de cerca de uma década: operação de pesquisa com plasma de deutério em 2034 e operação com deutério e trítio em 2039, com custo adicional de cerca de 5 bilhões de euros e custo total não informado. Esse cronograma pode ter mudado depois, e não o confirmamos na página oficial.
O panorama da IAEA e o setor privado
O relatório World Fusion Outlook 2025, da Agência Internacional de Energia Atômica (IAEA), divulgado em outubro de 2025 e reportado pela World Nuclear News, aponta mais de 160 dispositivos de fusão operando, em construção ou planejados, em cerca de 40 países, e investimento privado global acima de 10 bilhões de dólares. Os prazos dos projetos vão do final da década de 2020 a meados da de 2050. O diretor-geral Rafael Grossi disse que a fusão avança por trajetórias diferentes, "não uma única e uniforme".
Empresas, como a Commonwealth Fusion Systems (CFS), dão datas: a página da empresa traz a meta de ganho de energia maior que 1 (Q>1) na máquina SPARC em 2027. Isso é projeção de quem tem interesse em captar investimento, e as datas desse setor já foram adiadas antes.
"Ilimitada" e "limpa": os limites
- Combustível: "abundante" não é "infinito". Não detalhamos aqui a cadeia de combustível (deutério e trítio), por falta de fonte lida.
- Limpa não é sem impacto: a fusão não emite gases de efeito estufa na operação, mas a construção, os materiais ativados e o descarte exigem gestão; não analisamos esses pontos em detalhe.
- Custo: não há estimativa confiável de preço da eletricidade de fusão. Não afirmamos número.
- Prazo: para a meta climática de 2050, a fusão provavelmente chega tarde para ser a principal solução. Isso é opinião da Redação, não resultado de estudo lido.
O que isso significa para o Brasil
Segundo a Pesquisa FAPESP (2023), o Brasil tem três tokamaks pequenos: o TCABR, no IF-USP, o ETE, no Inpe, e o Nova, na UFES. Em 2021 houve uma proposta de programa nacional, e a reportagem registra que suas ideias não foram implementadas até então. O Olhar Digital (maio de 2026) diz que existe hoje um Programa de Fusão Nuclear ligado ao MCTI e à Rede Nacional de Fusão Nuclear, sem informar orçamento ou prazo, e que a pesquisa no país é "puramente pública", sem empresa privada, segundo pesquisador entrevistado. Não encontramos fonte primária do MCTI sobre o programa.
Para outras tecnologias de energia e clima, veja os indicadores do Futurismo e o glossário.
Fato, projeção e opinião
- Fato: ignição em laboratório (NIF) com ganho do alvo acima de 1, repetida várias vezes.
- Projeção: ITER com plasma de deutério e trítio em 2039 (Physics World, 2024); metas de empresas, como Q>1 em 2027 na SPARC.
- Opinião da Redação: a fusão é uma aposta de longo prazo e não substitui, até lá, solar, eólica, redes e armazenamento.
Perguntas frequentes
A fusão nuclear já gera eletricidade?
Não. O NIF produziu mais energia de fusão do que a do laser entregue ao alvo, mas a instalação consumiu muito mais energia da rede e não gera eletricidade.
O que foi o marco de dezembro de 2022?
O NIF, nos EUA, obteve 3,15 MJ de fusão com 2,05 MJ de laser no alvo, segundo o DOE. É a primeira ignição em laboratório, e não uma usina.
Qual a diferença entre ganho do alvo e ganho de planta?
O ganho do alvo compara a fusão com o laser que chega ao alvo. O de planta compara a eletricidade entregue com toda a que a instalação consome. O segundo ainda não foi demonstrado.
Quando o ITER vai funcionar?
Segundo o Physics World (2024), a operação de pesquisa está prevista para 2034 e a com deutério e trítio para 2039. O cronograma pode mudar.
A energia de fusão é ilimitada?
Não. O combustível é abundante, mas a usina tem custos, materiais e limites técnicos. "Ilimitada" é exagero.
O Brasil pesquisa fusão?
Sim, em pequena escala e no setor público, com três tokamaks pequenos em USP, Inpe e UFES, segundo a Pesquisa FAPESP.
Fontes
- DOE National Laboratory Makes History by Achieving Fusion Ignition, Departamento de Energia dos EUA (DOE) (2022-12-12)
- Achieving Fusion Ignition (marcos do NIF), Lawrence Livermore National Laboratory (LLNL) (2026-06-20)
- LLNL researchers achieve fusion ignition for second time, World Nuclear News (2023-08-08)
- ITER fusion reactor hit by massive decade-long delay and €5bn price hike, Physics World (2024-07-03)
- Fusion entering implementation phase, says Grossi (World Fusion Outlook 2025), World Nuclear News (2025-10-15)
- SPARC, Commonwealth Fusion Systems (2026-10-25)
- Cerca de 90 reatores de fusão nuclear funcionam no mundo, Pesquisa FAPESP (2023-02-01)
- A corrida global pelo primeiro sol artificial e o papel do Brasil, Olhar Digital (2026-05-09)
